Extraído da Página Futebol de Todos os tempos:
Série Melhores por Posição
"Bastava os alto-falantes do Maracanã anunciarem o nome de Zizinho para saber quem seria o vencedor da partida". E como sofreu o tricolor Nelson Rodrigues nos tempos em que Tomás Soares da Silva, o Zizinho, reinava nos gramados do Rio de Janeiro. Iniciou os passos nos finados clubes do Carioca e do niteroiense Byron, antes de ser absorvido pelas categorias de base do Flamengo, estreando pela equipe profissional em 1939. No Mais Querido pôde demonstrar toda a sua capacidade em fazer o jogo acontecer, como o mais exímio enxadrista, podendo antecipar como as jogadas desabrochariam, sugerindo caminhos, seguindo outros, confundindo, fazendo arte, encantando… sem perder o jeito arisco, traduzindo em essência a alma do futebolista brasileiro e representando, antes do surgimento de Pelé, o maior expoente do nosso futebol.
Com um futebol belo e ao mesmo tempo intenso e viril, não demorou a chamar atenção de Ademar Pimenta, treinador da Seleção Brasileira, sendo convocado pela primeira vez em 1942. Neste mesmo ano, conquista seu primeiro campeonato carioca pelo Flamengo, e viriam mais dois em sequência, consolidando assim o primeiro dos quatro tricampeonatos obtidos pelo clube da Gávea. E só não foram mais porque o Vasco da Gama, base da seleção na época e já favorito ao título de 1944 – acabou sendo vice com um gol polêmico do Fla em confronto épico na Gávea –, viria a assumir o cenário das conquistas relevantes a partir de então, fazendo essas as únicas conquistas de peso de Zizinho pelo rubronegro, o que não diminui o fato dele ser o maior ídolo da história do Flamengo anterior a Zico.
Pela seleção, protagonizou embates épicos e em grande parte das vezes nada amistosos contra argentinos e uruguaios no Sul-Americano, atual Copa América, levando a pior duas vezes para os primeiros. Um desses confrontos foi conhecido como a “Batalha de Nuñez”, onde argentinos partiram pra cima do time brasileiro, alegando estarem retribuindo uma agressão de Ademir Menezes em outro encontro. Como consequência, Zizinho, lesionado e revoltado, se retira da seleção por um longo período, vindo a retornar em 1949 para atuar justamente no Sul-Americano. Retribuindo toda sua mágoa em forma de talento, Mestre Ziza conduziu a seleção a uma série de atropelamentos, marcando 39 gols e sofrendo apenas 7, vencendo 6 jogos e perdendo apenas 1, conquistando um título que não vinha há 25 anos. A equipe estava pronta para vôos maiores e estava por vir o retorno da Copa do Mundo, 12 anos depois, e dessa vez com sede no Brasil: seria o cenário perfeito para coroar Zizinho e a geração fantástica de craques que quebrou o tabu sulamericano. Seria, porque a história não permitiu que assim fosse…
Mas antes deste, outro fato que marcou uma decepção para Zizinho: o Flamengo negociou-o para o Bangu sem ter consultado o craque previamente. Por um valor impressionante para a época, Zizinho se transfere para o alvirrubro, onde ficaria por sete anos e se tornaria o maior ídolo, assim como na Gávea (até aquele momento). Em seu primeiro encontro contra o ex-time, os proletários aplicam acachapantes 6 a 0 no Fla. A conquista mais relevante pelo Bangu foi o Torneio Início em 1950, especialmente por ter sido o primeiro título disputado por clubes no Maracanã, mas o clube conseguiu se reinserir como uma força dentro do futebol do Rio de Janeiro, fazendo boas campanhas que não se viam desde os anos 1930. Especialmente na edição de 1952, da qual Zizinho foi artilheiro.
Voltando ao fatídico episódio da história do nosso futebol, a seleção inicia a Copa da mesma forma que iniciou o Campeonato Sul-Americano: não tomando conhecimento dos adversários e não poupando gols. Até o último jogo, a campanha de quatro vitórias e um empate, com 21 gols marcados e apenas 4 sofridos, credenciava a equipe a precisar apenas de um empate para conquistar o título. O Uruguai, que não havia utilizado plenas forças no Sul-Americano anterior lançava um time (a considerar esta análise posterior aos fatos e se afastando ao máximo da habitual carga afetiva) tão bom quanto o brasileiro. Até este confronto, poderia-se dizer que os maiores rivais de Zizinho no futebol eram Ademir Menezes, Jair da Rosa Pinto e Heleno de Freitas, enquanto atuavam pelos seus rivais do Rio, mas a nível de seleção, foram todos seus companheiros. Porém, na final, pôde finalmente se deparar com um adversário de nível técnico ao menos equivalente ao seu: o uruguaio Juan Alberto Schiaffino. Parecia ser de outro mundo, a forma como confundia o meio brasileiro e a facilidade com que servia Ghiggia e Míguez. Zizinho, naquela tarde, não conseguia fazer o mesmo. Taticamente, López parecia engolir Flávio Costa. Mesmo abrindo o placar, a seleção brasileira parecia que não ia resistir à força de Varela e à magia de Schiaffino. E infelizmente, para a tristeza de mais de 200 mil pessoas, o Uruguai faz o segundo gol e vira o jogo, conquistando com justiça seu bicampeonato mundial e estabelecendo o Maracanazzo. Nem a presença na Seleção da Copa e o prêmio de melhor jogador puderam consolar Zizinho.
O “fantasma de 50” rondou não só os pesadelos como o dia-a-dia daquela geração por muitos e muitos anos. Inclusive no tratamento diferenciado aos atletas da seleção após isso. Um episódio curioso ocorrido no Sul-Americano de 1953, que curiosamente marca a despedida de Zizinho pela seleção marca isso: a diminuição de valor do famoso bicho pela metade e insatisfação do craque reverberam externamente, o que o faz ficar marcado como mercenário, responsabilizado pela eliminação e encerra, definitivamente, a carreira do craque pela seleção, fazendo-o ficar fora da Copa seguinte. Mais tarde, Zizinho trata esta como a maior mágoa do período como jogador, superando o vice-campeonato em 1950.
Após deixar o Bangu em 1957, acerta com o São Paulo, sob desconfiança da imprensa paulista, uma vez que, com o decorrer dos acontecimentos, Zizinho era praticamente querido apenas pela torcida dos clubes cariocas que defendeu – muitos atribuíam a Ziza a culpa de não ter atuado no mundial de 1954, achando que a sorte poderia ter sido melhor com ele. Superando toda a desconfiança e mostrando o porquê lhe atribuíam a alcunha de maior jogador já produzido no país à época, Zizinho conduz o Tricolor Paulista ao oitavo título estadual, último antes da fila de 13 anos que sofreria o clube, fazendo Zizinho se tornar ídolo são-paulino, apesar da curta passagem. Saiu do clube e, após poucas atuações com a camisa dos mineiros do Uberaba, acertou com os chilenos do Audax Italiano, onde ficou por dois anos e não conquistou títulos. Estava encerrada sua carreira como jogador.
Após pendurar as chuteiras, trabalhou para o Estado do Rio de Janeiro até a aposentadoria. Treinou a seleção brasileira que conquistou o ouro nos Jogos Panamericanos da Cidade do México em 1975. Pouco depois de ser homenageado pelo Bangu como maior expressão do clube na história e após gravar os pés na Calçada da Fama do Maracanã, morre vítima de complicações cardíacas no ano de 2002, aos 80 anos de idade, mas permanece imortal no seio do futebol arte carioca, brasileiro e mundial. Que sua memória jamais seja apagada!
FICHA COMPLETA
Nome: Tomás Soares da Silva
Nascimento/Falecimento: São Gonçalo, Brasil, em 14 de setembro de 1921; Niterói, Brasil, em 8 de fevereiro de 2002
Posição: Meia-atacante
Clubes: Flamengo-BRA (1939-1950), Bangu-BRA (1950-1957), São Paulo-BRA (1957-1958) e Audax Italiano-CHI (1961-1962)
Principais clubes: Flamengo (329 partidas e 146 gols) e Bangu (274 partidas e 122 gols)
Seleção: 53 partidas e 30 gols
Títulos: Campeonato Carioca (1942, 1943, 1944), pelo Flamengo; Campeonato Paulista (1957), pelo São Paulo; Campeonato Sul-Americano (1949), pela Seleção Brasileira
Prêmios Individuais: Seleção da Copa do Mundo FIFA (1950) e Melhor Jogador da Copa do Mundo FIFA (1950), pela Seleção Brasileira; Artilheiro do Campeonato Carioca (1952), pelo Bangu; 4º Melhor Jogador Brasileiro do Século XX pela IFFHS, 10º Melhor Jogador Sulamericano do Século XX pela IFFHS, 79º Melhor Jogador do Século XX pela Revista Placar (1999), 83º Melhor Jogador da História das Copas pela Revista Placar (2006), Time dos Sonhos do Flamengo da Revista Placar (2006) e um dos 1000 Maiores Esportistas do Século XX pelo The Sunday Times, pelo conjunto da obra.


