Extraído da Página Futebol de Todos os tempos:
Série Primórdios nº 16 - Vaclav Pilát

 

O ano é de 1915, em plena Primeira Guerra Mundial. Na Frente Oriental, depois de uma sangrenta batalha, alguém respira no meio de cadáveres, ainda que gravemente ferido e no leito de morte. Apesar dos perigos e da exposição ao fogo inimigo, o cabo Štepanovský reconheceu o seu rosto, carregou-o e levou-o aos cuidados médidos. Štepanovský sabia que estava a carregar uma lenda, não fosse ele um antigo árbitro de futebol e amante dessa modalidade. A vida é tão frágil, possivelmente teria ele pensado nisso. Štepanovský lembrou-se do quão grande craque que era Pilát.


Vaclav Pilát nasceu em Praga, no ano de 1888. Começou a sua carreira ao serviço do Staroměstská Olympia em 1905. Em 1910 rumou ao Sparta Praga. A sua chegada ao Sparta coincidiu com o fim da hegemonia do Slavia Praga, que era considerada a melhor equipa da Europa Continental nos anos 1900, digno adversário de equipas britânicas. Antes do início do conflito bélico, Pilát foi protagonista (juntamente com o seu colega Jan Kosek, outro extraordinário futebolista) numa competição organizada pela UIAF, o Campeonato Amador Europeu, com Boémia, Inglaterra e França. Ao serviço das cores da Boémia, Pilát fez um brilharete no jogo final contra a França (vitória por 4-1). Fez dois golos e duas assistências. A sua carreira mostrava-se bastante promissora mas sofreu uma pausa devido à Primeira Guerra Mundial. Tinha 26 anos.

Vaclav Pilát saiu do pior, mas ainda estava em situação crítica. Passou por sete operações difíceis, com espinha fracturada. Um dia foi erroneamente dado como morto, causando um susto lamentoso aos adeptos do Sparta Praga. A condição médica melhorou com o tempo, sendo proibido de fazer movimentos repentinos, pondo em causa a capacidade de andar, quanto mais o seu regresso aos relvados. Mas estamos a falar de Pilát, cuja sua vontade de vingar é tão grande quanto o perfume do seu futebol. Gradualmente foi evoluindo e adaptando o seu corpo face às exigências e ao ritmo do jogo. Foi a tempo de ser uma figura importante da melhor equipa que o Sparta Praga já teve, o "Sparta de Ferro", que não perdeu um único ponto de entre 1921-1923. Pilát nessa mesma equipa assumiu-se como organizador de um ataque constituído por Antonín Janda, Jaroslav Červený e Josef Sedláček. Pelo seleccionado da Checoslováquia, participou ainda nos Jogos Inter-Aliados de 1919 (que venceu) e nos JO de 1920 que foi finalista vencido numa final infame de má memória para os checoslovacos.

Pilát era um jogador cerebral, imaginativo e altruísta que, apesar de se movimentar a baixo ritmo, estava em todo o lado e jogava com a bola colada aos pés. O seu estilo de jogo consistia em um variedade de acções ofensivas permitindo criar diversas e imprevisíveis ocasiões de golos, difíceis de serem batidas pela oposição, principalmente os seus passes, tantas vezes descritos como "fabulosos", "curvosos" ou "impossíveis". Facilitava bastante o ofício dos goleadores, afinal apenas tinham que rematar. Os seus passes assumiam diversas formas, seja curto ou longo, para a linha lateral ou a rasgar para a linha de fundo, enfim, ninguém na época definia melhor o passe que ele. A sua particularidade em forma de passe chamava-se "passagem checa", que era um passe a rasgar, milimétrico, e que passava por entre dois defesas adversários. Mesmo com o passe a baixa velocidade e com os defensores adversários em corrida, a bola chegava aos pés do destinatário, qual valente ilusão de óptica.

O mais incrível é que Pilát era um jogador que jogava essencialmente na posição de avançado-centro! O primeiro grande avançado da história do Sparta. No início dos anos 20, urgia uma necessidade de substituír Pilát (já que estava numa idade avançada), mas o Sparta só conseguiu com a chegada do belga Raymond Braine (em 1930). O Sparta, com ele, finalmente encontrou um bom substituto (mesmo que em 1922, tivessem contratado Alfred Schaffer, que era apontado como o melhor avançado do mundo). Retirou-se em 1926, ao serviço do ČAFC Praga. Mesmo com 323 golos(!!) em 443 jogos com as cores do Sparta, ele é largamente mais recordado como assistente. Teria ele o melhor passe em todo o mundo do futebol anterior à Segunda Guerra Mundial? Será ele um genuíno candidato a figurar em restritos grupos de melhores executantes de passes da história do futebol? Um génio como poucos...