Na busca de uma completude de ações harmoniosas no universo, encontramos a noção de perfeição. O futebol de certo modo nos aproximou dessa ideia com Pelé. Não é exagero ou deslumbre, o Rei do futebol conseguiu transformar estádios em palcos de espetáculos pelo mundo, fazer gols tornaram-se obras de arte pintadas com seus pés. Não se trata apenas do maior craque que já desfilou nos campos de futebol, mas do maior esportista do século XX (segundo o Comitê Olímpico Internacional e a France Football, entre outros meios). Superando outras lendas como Muhammad Ali (melhor pugilista da história), Mark Spitz (dono de nove ouros na mesma Olimpíada) e Jesse Owens (o velocista negro que silenciou o nazismo de Hitler em Berlim/34).
Passes precisos, arremates indefensáveis, cabeçadas fulminantes, dribles desconcertantes, raciocínio técnico-tático instantâneo, explosão muscular, imprevisibilidade nos movimentos e ações com objetividade. O prodígio garoto foi o mais jovem jogador (apenas 17 anos) a marcar gols, a fazer um hat-trick, e a ser campeão de uma Copa do Mundo.
Transformou um clube mediano e sem grande força na capital no Melhor Clube do Mundo – quiçá da história – (El Gráfico), uma seleção de pouca expressividade no próprio continente e com complexo de vira-lata, no País do Futebol.
Antes dele o Brasil sempre teve craques lendários como Leônidas e Zizinho e grandes gerações como em 1938 e 1950, porém, sempre faltou algo. Mesmo em 1958 não existia favoritismo e antes de sua entrada o Brasil não apresentava futebol brilhante. Ao passo do menino a classificação e atuações que assombraram o mundo.
Ao longo de suas participações em Mundiais de Seleções (1958, 62, 66 e 70), Pelé assinalou 12 gols (0,86 de média) e deu 10 assistências em 14 jogos. Marcou tentos nas três Copas conquistadas pelo Brasil, em quatro Copas diferentes e em duas finais distintas, sendo o único com 3 gols em finais, 7 em mata-matas, é o maior artilheiro de finais e semifinais, além de 5 na primeira fase. O Rei do futebol é o primeiro e único jogador da história a conquistar três Copas do Mundo.
Sua incrível capacidade e genialidade nos gramados impulsionou inúmeros estudos dos adversários, novos esquemas táticas (como o legitimo catenaccio italiano), balanços defensivos e marcações por zona foram sendo reformulados. Ainda assim, não conseguiam antídotos capazes de cessa-lo, restando, por vezes, a violência, como na Copa da Inglaterra em 66. O futebol foi um antes e outro depois de Pelé.
Foi um dos primeiros jogadores – o primeiro com tamanha noção tática – a fazer flutuação ofensiva, tendo grande desempenho em duas posições e esquemas: atacante na Copa de 58 e meia-ofensivo na Copa de 70. Com ele nasceram e foram executadas alguns dos gols e jogadas mais plásticas de todos os tempos – como o nascimento do Gol de placa.
Com seu Santos o homem que imortalizou a camisa 10 conquistou 2 Mundiais Interclubes, 1 Supercopa Mundial, 2 Copas Libertadores, 6 Brasileiros, 10 Paulistas entre outros títulos fora e dentro do Brasil. Com sua corte o Rei parou guerras, desafiou ditaduras e se transformou em uma das maiores personalidades da história, todo o resto virou futebol plebeu. Nos quatro cantos do mundo (Américas, Europa, Ásia, África, Oceania), correrias e gritarias, estádio completamente tomados, demonstrações intensas de euforia e fanatismo extremo, Pelé se transformou em um Mito.
Foram 1.281 gols em 1.375 jogos como profissional, dos quais 95 em 115 partidas pela Seleção Brasileira.
Nas disputas do Campeonato Paulista (um dos mais competitivos do mundo na época), Pelé se tornou o maior artilheiro da competição (470 gols), sendo o goleador de 11 edições, 8 seguidas de 1957 a 65. Tornou-se também o maior artilheiro do Torneio Rio-São Paulo (49) e das Competições Nacionais vigentes (Taça Brasil e o Torneio Nacional Roberto Gomes Pedrosa). Ou seja, o maior artilheiro de competições do Brasil (com 100 gols), quando o país tinha um nível técnico conquistador de três Copas do Mundo (Taça Jules Rimet).
Além disso, Pelé é ainda o maior artilheiro dos Mundiais Interclubes (7 gols em 3 jogos) e marcou outros três na Supercopa Mundial. Assinalou ainda incríveis 16 gols em 14 jogos na Copa Libertadores da América. Em todas as competições as quais disputou dentro e fora do Brasil, o Rei mostrou sua incrível capacidade de artilheiro, um jogador letal e inefável.
Porém, desses números gerais, existe quem conteste os gols assinalados nos “amistosos”, que representam em torno de 40%. Pois bem, são apenas 77 gols marcados contra combinados, seleções nacionais e seleções locais – 13 são aqueles no exercito.
Se faz necessário compreender o contexto histórico das décadas de 1950, 60 e 70, para não existir distorções e injustiças. As excursões foram o cume de uma época para as equipes brasileiras e mesmo para um cenário no exterior ao qual Pelé e o Santos foram alcunhados de Reis do Futebol (L’Equipe, France Football, Gazzetta Dello Sport, Word Soccer, etc).
A perspectiva dessas partidas internacionais trazia fama, prestigio e endeusamento ao vencedor. Cifras milionárias eram envolvidas, existia um enorme interesse do público e da imprensa global. Os chamados “amistosos” só não valiam os 3 pontos, mas em termos de representatividade, financias e nível técnico, eram até superiores, reconhecidos como “Desafios Internacionais”, foram o apogeu. Sem patrocinadores e transmissões de TV, as excursões eram a única forma de manter elencos de craques, no caso do Santos, manter o melhor plantel do mundo.
Nesse contexto, dos 448 gols de Pelé em amistosos 371 foram realmente importantes, totalizando 1.014 gols pelo Santos. Partidas contra adversários de alto nível competitivo, campeões continentais e nacionais como: Barcelona, Real Madrid, Milan, Internazionale, Juventus, Benfica, Stade de Reims, Boca Juniors, River Plate, Peñarol, Independiente e etc. Todas equipes estocadas por Pelé entre 1959 a 1974.
De todo modo, a frieza dos números apenas sintetizam a magnitude da lenda. Genialidade, força e beleza, rapidez e precisão, inteligência, desenvoltura, constância, elasticidade e perfeccionismo. Pelé talvez não tenha sido melhor em tudo no futebol, mas ninguém foi tão bom na mesma magnitude em todas as coisas quanto ele.
TEXTO: Acervo Histórico do SFC
Fontes/Referencias:
Centro de Memória e Estatística do Santos FC;
Almanaque do Santos FC (Guilherme Nascimento);
O Maior Espetáculo da Terra (Marcelo Fernandes e Odir Cunha);
A Piramide Invertida (Jonathan Wilson);
De Charles Miller à gorduchinha: a evolução tática do futebol em 150 anos de história (Darcio Rancão Ricca)
Jornal “A Gazeta Esportiva”;
FIFA, Conmebol e COI;
Livros, Revistas e Artigos:
El Gráfico, Word Soccer, Gazzetta Dello Sport, Guerin Sportivo, Kirkcer, L’Equipe e France Football.


