Através de uma das mais brilhantes ideias de futebol desenvolvidas numa equipe, os húngaros redesenharam o mapa do futebol com um legado magnifico e imensurável.
Ao passo de um jogo fascinante, harmonioso e criativo, a brilhante geração de craques capitaneados por um meticuloso comandante, inverteram a ideia de pragmatismo da pirâmide do futebol (WM) e traçaram os conceitos do futebol moderno (WW).
Como muitas outras seleções especiais, numa dessas ironias da história, a Hungria não conquistou a Copa do Mundo. Mas, além das Olímpiadas e uma corrida invicta de 32 jogos em 4 anos (de junho de 1950 a 4 de julho de 1954), deixou um legado tão valioso como uma conquista de Mundial.

A CONSTRUÇÃO DE “ARANYACSPAT”.
A EQUIPA DE OURO.
 

Durante a segunda Guerra, perante a marcha do avanço nazista em meados dos anos 40, a nação húngara vivenciou um profundo calvário. A cidade de Budapeste, principalmente, virou um campo de batalha, destroçada pelas bombas e ao domínio dos soviéticos.

Ao fim da barbárie e a vitória dos aliados, a Europa foi dividida em duas. Na parte Oriental, atrás da Cortina de Ferro, capitaneada pelo Regime Soviético, estava a Hungria passando por uma profunda reconstrução. Dentre as áreas a serem remodeladas nesse processo, como demonstração da força do poder politico, estava o esporte (ocupariam o 3º posto geral na tabua de medalhas nas Olímpiadas de 1952).


Ferrenho defensor do socialismo (Stalinista) e vice-ministro dos esportes da Hungria, o meticuloso Gusztáv Sebes é o escolhido para chefiar o futebol, em 1949. Sucessor das ideias de Hogan e Meisl, o treinador articulava projetos inovadores e essenciais na construção de uma grande equipe. “O futebol é uma questão existencial” afirmava Sebes, induzindo ser fundamental a reunião dos atletas ao máximo de tempo possível para entrosamento. Como a Seleção só se reuniria em períodos intercalados, eles teriam de jogar em um mesmo time. Formam-se as raízes do processo que fará do Honved um dos melhores times da história.

Por imposição do governo, o Kispest AC (mudaria o nome para Honved, ou Defensores da Pátria, em húngaro), passaria a ser controlado pelo exercito. Nas bases da equipe já se encontravam os lendários Puskas e Bozsik, e a partir deles começa a construção do Time de Ouro. Seriam requisitados para o clube, em função do interesse estatal, os melhores jogadores do país - que assim adquiriam patentes militares. Foram os casos de Czibor (vindo do Csepel), do goleiro Grosics, o defensor Lorant e os avançados Budai, Kocsis e Czibor (trazidos do Ferencvaros). Para comandar o Honved, após a morte do antigo treinador (pai de Puskas), o gênio Sebes indica Janos Kalmar (um dos pais do 4-2-4). Teria ainda um outro grupo base reunido no MTK Budapeste, com Hidegkuti, Lantos e Zakarias.

Com esse plano de futebol, passo a passo, Gusztáv Sebes entrosa uma equipe magistral, de incrível demonstração no jogo preciso e de muita mobilidade, na qual todos os jogadores tinham compactação ao defender e atacar, em constante movimentação no campo, com técnica impressionante e um preparo físico notável.
O futebol nunca mais seria o mesmo...      

 
                                                            

A GÊNESE DO FUTEBOL MODERNO.
 
A compreensão de existir apenas um jogo ideal, a partir dos inventores, campeões olímpicos e nação mais influenciadora do jogo, a soberana Inglaterra, fez o futebol engessa-se por muito tempo em ideias pragmáticas. Amarras invisíveis que não impossibilitaram, porém, surgir inovações (dentro do 2-3-5) no começo do século XX. Como os conceitos lançados por Jimmy Hogan e, principalmente, o magnânimo Hugo Meisl com a Áustria (figuras brotadas da famosa escola de Danúbio). Na nação mais vencedora do período (campeões das Copas do Mundo de 1934 e 38, e das Olímpiadas de 36) o fascismo construía um espirito nacionalista, impulsionando os Italianos a efetivar seu jogo de força, simbolizando bravura e os gatilhos do catenaccio.

Por volta dos anos 30, sucedendo os mestres da escola de Danúbio e aumentando a altivez inglesa, o genial Hebert Champan percebe que a nova regra de impedimento deixava as defesas ineficazes com apenas dois jogadores, e promoveu uma grande inovação abalando o sistema tático padrão (2-3-5), ao implantar o terceiro zagueiro quando atrasava um médio. Nascia o incrível WM. Por quase duas décadas, essa vanguarda tática passou a ser o maior conceito de organização do jogo, algo inabalável e copiado por quase todos da esfera futebolística. Embora na América do Sul, depois dos uruguaios (da Celeste Olímpica), lá pelos anos 40 passou a existir uma noção de jogo mais técnico, solto de táticas, mas bem organizados como era, por exemplo, a brilhante geração Argentina (com base no River Plate, Lá Máquina).
 
 
Bastante influenciado por Meisl e Pozzo, mas principalmente observador de tudo que existia até aquele momento, entre fins de 40, Gusztáv Sebes (conforme seu Livro Alegrias e Desilusões) tinha a compreensão que não bastava reunir jogadores com grande nível técnico numa equipe, pois tais qualidades só seriam decisivas se fossem acompanhadas de uma inteligência de jogo especial e um comportamento forte nos treinos e na vida. Além disso, sentiu a necessidade de reinventar uma nova forma de organização tática para suas ideias.
 
Demonstrando toda essa revolução com volúpia na primeira metade da década de 50, os Mágicos seriam invencíveis por quatro anos, atraindo multidões e causando nos públicos um misto de espanto e temor na promoção de seu futebol inefável. A corrida internacional apresentou vitorias sobre Albânia (12x0) e Áustria (4x3, 3x2 e 1x0), além das Olímpiadas, Suíça (4x2), e 3 a 0 diante da Itália, em Roma, garantindo a Copa da Europa Central ao ficar no topo da classificação (Puskás foi o artilheiro com 10 gols). Além de também vencer a Suécia (4x2) e, principalmente, por duas vezes, a "poderosa" Inglaterra. Foram 20 jogos invictos nesse período, 91 gols marcados (quase 5 gols em média por jogo), 18 vitórias e 02 empates. Valorizando o físico e aquecimentos, o time húngaro tinha uma disposição impressionante, marcando gols nos adversários muitas vezes antes dos 15 minutos iniciais. No alinhamento tático o 4-2-4 por vezes virava 4-1-5 ao atacar e 4-3-3 ao defender, com Puskás atormentando os defensores adversários, os pontas efervescentes Budai e Czibor fechando pelo meio, enquanto Kocsis se fazia de pivô e Hidegkuti chegava para armar com Puskás e finalizava com primor. Além de Bozsik mais solto e uma linha de 4 defensores. Não apenas uma revolução técnica, tática e física, a seleção da Hungria foi um projeto de Estado, a melhor propaganda do governo comunista e os atletas uma espécie de soldados do bloco soviético.

CAMPEÕES OLÍMPICOS
 
Nas Olímpiadas de Helsinque, na fria Finlândia, em 1952, a Hungria já era uma das mais fortes escolas de futebol do mundo. Longe de serem surpresas, já tinham sua relevância desde a geração dos anos 30 com Sárosi & cia, finalistas da Copa do Mundo.

A competição também reunia outras grandes forças, como o Brasil (de Evaristo de Macedo e Vavá), a Suécia (ultima campeã Olímpica/49, com Rydell e Erik Nilsson) e a Iugoslávia (com Mitić,
Ognjanov e Čajkovski). Dia 15 de julho, com 2 a 1 (Czibor e Kocsis) frente a Romênia, os húngaros passaram da fase preliminar. Na sequencia (21/07), pela primeira fase do torneio, os italianos foram presas fáceis: 3 a 0 (com Kocsis deixando o seu) ficou até barato. Na fase final, dia 24/07, disseminando um jogo dominante e envolvente os Magiares arrebataram 7x1 na Turquia (2 gols de Kocsis e 2 de Puskas, além de Lantos e Bozsik também marcando), e no dia seguinte meia dúzia na Suécia com a magia de Puskas, Kocsis (2x) e Hidegkuti. Na decisão enfrentaria a Iugoslávia, que havia passado por URSS, Dinamarca e Alemanha.
 

Naquele 02 de agosto, quase 60 mil espectadores acompanharam algo épico. Com ações latentes dos jogadores aos espaços do campo, os iugoslavos foram envolvidos numa tática ainda desconhecida. Resistiriam no primeiro tempo com um empate apesar das ameaças húngaras, graças a forte defesa formada por Beara, Stankovic e Crnković. Mas na etapa regulamentar, ficou impossível segurar Puskás (abriu o placar aos 25’). Em outro ataque potente aos 43’, Czibor definiria o triunfo (2x0), resultado até simples dado os constantes ataques húngaros.
A Conquista Olímpica deu reconhecimento e o peso do brilhantismo, que ficaria ainda maior um ano depois, ainda antes da Copa de 54.

A INVERSÃO DA PIRAMIDE - O JOGO DO SÉCULO
 
Após a conquista Olímpica, crescia a reputação dos Mágicos no sentido de representarem “a melhor escola de futebol do mundo”. Torna-se grande, desse modo, o interesse de uma partida que mudaria para sempre a história do futebol. No dia  25 de novembro de 1953, em pleno palco de Wembley, os húngaros seriam colocados a prova  diante do mítico English Team, em duelo que ficaria eternizado como Match Of The Century (Jogo Do Século)!

O desastre dos ingleses contra os norte-americanos na Copa do Mundo de 1950, no Brasil, foi visto como uma aberração. A pátria-mãe do futebol, invicta em Wembley (não perdia um jogo em casa para uma seleção não-britânica desde 1901) sempre desafiava todas as grandes equipes que surgiam, até então tendo resultados satisfatórios continuava no alto de sua soberba e hierarquia superficial. Mas contra os húngaros tudo mudou...

 
Naquela tarde, às 16:45, sob olhares atenciosos de mais de 100 mil pessoas, além da grande imprensa, bastou as equipes se organizarem em campo lado a lado, ao apitar do arbitro Leo Horn, para o impacto inicial acontecer: a inovadora tática de Sebes ganhava conotação mundial perante os olhos do mundo! Enquanto a Inglaterra utilizava seu sistema “invencível” na época, algo a ser copiado por todos, no gigante WM (3 defensores, 2 meias recuados e 2 meias avançados, além de 3 atacantes). Os Magiares faziam uma espécie de desordem organizada no WW. Além de baralhar numerações nas camisas, Gusztáv Sebes invertia o W, da tática inglesa, valendo-se de uma boa preparação física dos seus homens, recuando dois jogadores de meio-campo para a defesa numa inédita linha de 4 zagueiros (em movimentação constante com a ofensiva), levando sempre vantagem contra os atacantes ingleses. Na frente o principal ingrediente do jogo, o camisa 9 húngaro induzia a ideia de centroavante, na verdade, um criador de jogadas (ou falso 9). Foi através dele, logo com 1’, após passe de Bozsik, o primeiro gol: Hidegkuti dribla Johnston e de perna direita acerta um petardo sensacional para balançar as redes de Merrick (1x0) - era comum, devido os aquecimentos antes dos jogos, os húngaros começarem com tudo pra cima dos adversários.

Apesar do empate inglês pouco tempo depois, logo o controle dos Magiares se faria notável. Puskás era outro cérebro a pensar jogadas, com ele o avanço de Czibor, que devolve a bola no camisa 10, derrubado na área, sobrando a bola para Hidegkuti, limpar o defensor e marcar (2x1).


Ao longo do jogo, conforme recuo de Hidegkuti, os laterais ingleses voltavam para marca-lo, nesse momento ele metia a bola nos espaços vazios, nas costas da imponente defesa inglesa, encontrando os extremos velocistas Budai e Czibor livres nas diagonais, ou Puskás no mano a mano com um único zagueiro. Foi assim, que após trabalho de toques, Czibor apareceu livre na direita, ele passou a Puskas, que dá um corte seco no lendário capitão inglês Billy Wright deixando-lhe no chão, e arremata de perna esquerda assinalando outro golaço (a jogada desse gol seria referida como “o objetivo de arrastar para trás"). Aos 29’, Bozsik cobrou falta, a bola desvia em Puskás e entra (4x1). Mortensen até consegue diminuir aos 38’. Mas em outra falta cobrada por Hidegkuti na cabeça de Kocsis, que manda na trave, no rebote Bozsik assinala outro gol (5x2). A tática só foi perecível devido a incrível técnica daqueles jogadores que faziam algo fora do habitual, provocando dor de cabeça no adversário e espantavam o mundo. A jogada do sexto gol foi magia pura, quando Czibor e Buzánszky trabalham a bola do lado direito deixando os ingleses na roda. A redonda é alçada na área, Budai toca de costas com a cabeça para Kocsis, que de cabeça manda à Puskas, em seu domínio magistral na entrada da área, observa, toca com categoria por cima da defesa inglesa, Hidegkuti é um ponto futuro a penetra pela direita e chutar sem deixar a pelota cair assinalando a arte aos 53’ (6x2). Ali foi o bastante para iniciar os aplausos ingleses, incrédulos mas conscientes de estarem vendo algo revolucionário. Alf Ramsey fez ainda de pênalti (6x3), mas o mito já estava consumado. O meio-campista da Inglaterra, Syd Owen, mais tarde reclamou que "era como jogar pessoas do espaço sideral". Foram quase 40 chutes a gols dos húngaros contra meia dúzia dos ingleses. Um massacre em todos os sentidos!

Muito além do futebol, o Duelo do Século também tinha ponto de vista politico, colocando uma espécie de confronto simbólico entre o Oriente Comunista e o Ocidente Capitalista. Para a sociedade, a equipe húngara tornava-se a imagem da rebelião de uma nação oprimida contra superiores implacáveis. Como observaria o escritor,  Péter Esterházyque, " para a Hungria Ferenc Puskás e seus companheiros de equipe eram os heróis do conto de fadas, que triunfam onde homens comuns não podem”. Para a Inglaterra, o resultado chocante abriu um novo capítulo no futebol nacional.


A Hungria adaptou o WM e redesenhou no WW. Com um dos médios (Zakarias)  recuando formava a linha de 4 zagueiros, na frente induziu a pensar que Hiderkuti era um centroavante, na verdade, um meia que fazia flutuação atrás da linha de ataque, assim articulando o 4-2-4 (principalmente ao atacar, conforme a escola húngara de Sebes e Belá Guttmann). Puskas era outro jogador que podia recuar, virando um ponta de lança, nesse momento formando o 4-3-3, principalmente ao defender. De maneira geral quase todos os jogadores tinham variações. Bozsik podia fazer um líbero ou médio central com liberdade de avançar; Zakarias era conforme necessidade um defensor ou um médio central; Lorant era um zagueiro, mas também podia ser líbero de saída pela esquerda ou direita. Na frente Czibor atuava nas duas pontas, Kocsis virava o principal centroavante ao recuo de Hidegkuti ou Puskas. O major galopante era um cérebro a flutuar do meio para o ataque e reger toda a sinfonia. ”.

As jogadas de passagem curta e rápida, sempre acompanhada de passes longos e letais, confundia os defensores e os deixavam sobrecarregados. A diferença foi notavel no trabalho de equipe. A Inglaterra jogava como um grupo de individuos fazendo trabalhos separados - boa parte do mundo jogava assim. Por outro lado, os húngaros se movimentavam como uma unidade única, sifonia perfeita com Puskás puxando as cordas e dando o tom.

Pela mão de Gusztáv Sebes, a Hungria mostrava um novo caminho táctico, desmistificando o “WM”. Era o alvorecer do 4-2-4, um estilo sem posições definidas que privilegiava a técnica e a ofensividade, jogadores a movimentar-se constantemente como partículas de elétron em um átomo. Iminente e puro nascer, do que diriam 20 anos depois, ser o nomeado Futebol Total. O mundo até pode atribuir aos holandeses, com seu acervo midiático e televiso maior na época, mas os percursores foram os húngaros com a polivalência dos seus homens, aproveitando também do ensaio da Áustria (Wunderteam) dos anos 30, ou todo o futebol centro europeu desde 1930 a 1956. Embora, certamente, fosse um exagero afirmar que a queda do Império Britânico foi causada pela perda de um jogo de futebol, a multidão silenciosa e sombria de Wembley certamente teve sua visão do mundo abalada. E as coisas ficaram ainda piores alguns meses depois, quando a Hungria derrubou a Inglaterra por 7 a 1 no recém-construído Nepstadion - o Estádio do Povo - em Budapeste, causando a mais pesada derrota na Inglaterra.

UM LEGADO ACIMA DE UMA COPA DO MUNDO
 
Como uma das favoritas a incrível Hungria chegou a Copa do Mundo, na Suíça. Em ritmo de treino, foi um verdadeiro massacre à estreia dos húngaros, dia 17 de junho de 1954, diante dos Sul Coreanos, no estádio Hardturm, em Zurique. Sem fazer nenhuma falta (um recorde até hoje) os mágicos foram imparáveis na goleada por 9 a 0!

Talvez o destino da Copa, porém, tenha sido traçado já na segunda rodada, na sacada de mestre do técnico alemão Sepp Herberger, que entendeu o regulamento e não expos em campo os principais jogadores (alguns como Posibal escalou fora de posição), poupando  e visando os jogos que realmente interessavam (contra a Turquia), além de estudar o magistral time da Hungria. Sem importar com uma derrota, Herberger queria os titulares descansados para as decisões. O time húngaro por outro lado mostrou todo seu poderio aplicando 8x3 (Kocsis 4x, Hidegkuti 2x, Puskás e Tóth). Além de servir de conhecimento aos alemães, aos 15’ do 2º tempo, a Hungria perdeu seu maior astro, Ferenk Puskas, após sofrer séria torção no tornozelo devido uma desleal entrada por trás do médio Liebrich. Sem conseguir ao menos caminhar, o craque ficou na beira do gramado, mostrando a perna inchada para os jornalistas. A duvida ficou se ele voltaria a atuar naquele Mundial.

A estratégia dos alemães se mostraria acertada. Nos jogos seguintes a Turquia goleou a Coreia do Sul como esperado, e os alemães demoliram os turcos num 7 a 2.
 

Nas quartas de final, em jogo que ficou conhecido como A Batalha De Berna, quis o destino colocar o Brasil frente aos Magiares, dia 27 de junho, no estádio Wankdorf, em Berna. Antes da luta começar, enquanto o Brasil fazia nervosa preleção nos vestiários, os húngaros corriam na lateral do campo para aquecer e entrar no gramado como se já estivessem jogando alguns minutos, pegando os brasileiros ainda frios. A bola rola e aos 4’, Hidegkuti tomou a redonda de Pinheiro e chutou forte abrindo a conta. Três minutos depois, Kocsis em uma de suas cabeçadas, ampliou. Sem respiro o placar mostrava 2x0! O Brasil entrou em campo com ataque modificado: Índio e Humberto no lugar de Pinga e Baltazar; além de Maurinho, improvisado na ponta esquerda devido a lesão de Rodriguez. Já a Hungria do técnico Gyula Mandi, com a lesão de Puskás, deslocou Czibor para a meia e pôs Tóth na esquerda. A chuva tinha deixado o gramado em más condições prejudicando a velocidade das equipes. Aos poucos o Brasil até igualou as ações, Djalma Santos (de pênalti) diminuiu ainda na 1] fase. No meio campo os jogadores começam a trocar agressões, longe dos olhos do arbitro. A partida vira uma batalha com o passar do tempo, com carrinhos e jogadas ríspidas. No segundo tempo, de forma polemica, aos 15’, a Hungria assinala o terceiro gol com Lantos (pênalti). Ainda com alguma força o Brasil reage aos 22’, Julinho acerta um arremate de curva (golaço) para recolocar o Brasil no jogo. A confusão retoma, e os craques Nilton Santos e Bozsik são expulsos. Aos 40’, Humberto acerta Lorant e é expulso. A Hungria aproveita a superioridade numérica e decreta com Kocsis o quarto e ultimo gol, 4x2!
 

Diferente do jogo anterior, nas Semifinais a partida foi de pura arte entre húngaros e uruguaios, no Olympique La Pontaise, em Lausanne (30 de junho). Como habitual a Hungria mostrava ímpeto marcando logo aos 12’ (Czibor, 1x0). Mas longe de existir uma superioridade, ataques lá e cá. Os húngaros com movimentação e toques rápidos, os uruguaios com avanços pelas pontas nos contra-ataques. Ao iniciar a segunda fase, aos 2’, os Magiares ampliaram com Hidegkuti. Os uruguaios, contudo, não ficaram pressionados e através de Hohberg, aos 31 e aos 41, empatam (2x2). Na prorrogação uma das mais belas apresentações já vistas entre duas equipes, melhor para a Hungria, que tinha Kocsis para marcar 2x de cabeça. Ao fim a torcida acenava lenços brancos agradecendo o espetáculo. Na decisão um recontro com a Alemanha, agora titular e com outra postura.
 
 
 
04 de julho de 1954, às 17 horas no estádio Wankdord, em Berna, as seleções iniciam a final da Copa do Mundo em meio ao "dilúvio" no gramado. Passando pela favorita Iugoslávia e eliminando a Áustria (com goleada) nas semifinais, os Alemães mostravam terem crescido durante a competição e estavam mais confiantes. Do outro lado a Hungria, que vinha de uma dura prorrogação e logo se mostraria exausta, teria o retorno de Puskás, embora seu tornozelo não estivesse totalmente curado, mas naquela situação Sebes e Mandi entenderam que valia qualquer esforço. Como foi durante toda a competição, a iniciativa é dos húngaros, repetindo o mantra de vazarem o adversário logo nos primeiros minutos, Puskás aos 6’, faz 1x0. Três minutos depois Hidegkuti aumenta, 2x0. Ocorria como esperado a vitória dos favoritos. Mas a chuva torrencial que caia prejudicava o jogo rápido e de passes da Hungria, favorecendo o jogo de força dos Alemães. Principalmente de Fritz Walter, que costumava jogar ainda melhor em dias chuvosos e frios. Com paciência – e muita correria – a Alemanha fez seu jogo tático de esperar defensivamente e sair nas sobras: Fritz Walter passava a recuar e iniciar as jogadas, Eckel implementa marcação implacável em Hidegkuti. Em pouco mais de sete minutos a equipe Alemã buscava o empate: com Marlock aos 11’ e Rahn aos 18’.   
 
Nem mesmo a ausência do goleiro Grosics foi sentida pelos húngaros, no segundo tempo a confiança era enorme e eles pensavam reverter aquilo em gols. Porém, os alemães encontraram o posicionamento ideal em campo e o goleiro Turek operava milagres - além de bolas na trave e zagueiros tirando em cima da linha do gol. No passar do relógio, a parte física que era uma das maiores valências dos húngaros se desgastava, desabando no gramado pesado, aos poucos diminuindo o ritmo para uma possível prorrogação. Incrivelmente, contudo, os alemães continuavam na mesma pegada de dinamismo (isso levantaria suspeitas de doping), em um contragolpe, a seis minutos do fim, aproveitando uma bola mal afastada pela zaga húngara, o predestinado e rebelde Rahn decreta o milagre alemão: 3x2. Aquele tento até deu animo aos Magiares, que partiram para o desespero, Czibor em chute a queima-roupa faz Turek virar um Deus na voz de um locutor germânico. Puskás em outro lance consegue balançar as redes, mas o bandeira marca impedimento. Fim de jogo. O inesperado acontece, a Hungria fora derrotada depois de quatro anos invicta. Os Alemães são Campeões do Mundo, provavelmente a maior de suas vitórias no futebol.

Após aquela Copa do Mundo, nunca mais a Hungria voltaria a formar gerações tão magnificas. Além da aposentadoria de alguns jogadores e desmembramento do Honved (perdendo jogadores pra outros clubes como Real Madrid e Barcelona), a Revolução no país (revolta popular contra os ações impostas pelo governo da República popular da Hungria e pela URSS) ocorrente dois anos depois empenhou na derrocada. Assim, a politica e as armas que geraram aquela Equipe de Ouro, também seria responsável pelo seu fim. Uma pá de cal em possíveis novas grandes gerações a surgirem...
Ficaram, porém, eternizados pela revolução e legado no futebol mundial.

CONQUISTAS & CAMPANHAS
- Campeões Olímpicos de 1952.
- Copa Internacional da Europa Central de 1953.
- 2º lugar na Copa do Mundo de 1954.



OS FEITOS HISTÓRICOS & LEGADO
- Invencibilidade de quatro anos em jogos internacionais (recorde de 32 jogos consecutivos).
- Estabeleceram a maior escala de gols em uma época.
- Sepultaram a soberania Inglesa e o gigante WM.
- Os pioneiros a usarem em harmonia a técnica, a tática e o preparo físico em alta proporção no jogo.
- Revolucionaram o futebol com o WW (4-2-4 ou 4-3-3), intervendo a pirâmide inglesa e estabelecendo matrizes para novos conceitos táticos difundidos e desenvolvidos no futuro (como o Brasil de 1958 e a Holanda de 1974).