Ao passo de um jogo fascinante, harmonioso e criativo, a brilhante geração de craques capitaneados por um meticuloso comandante, inverteram a ideia de pragmatismo da pirâmide do futebol (WM) e traçaram os conceitos do futebol moderno (WW).
Como muitas outras seleções especiais, numa dessas ironias da história, a Hungria não conquistou a Copa do Mundo. Mas, além das Olímpiadas e uma corrida invicta de 32 jogos em 4 anos (de junho de 1950 a 4 de julho de 1954), deixou um legado tão valioso como uma conquista de Mundial.
A EQUIPA DE OURO.
Durante a segunda Guerra, perante a marcha do avanço nazista em meados dos anos 40, a nação húngara vivenciou um profundo calvário. A cidade de Budapeste, principalmente, virou um campo de batalha, destroçada pelas bombas e ao domínio dos soviéticos.
Ao fim da barbárie e a vitória dos aliados, a Europa foi dividida em duas. Na parte Oriental, atrás da Cortina de Ferro, capitaneada pelo Regime Soviético, estava a Hungria passando por uma profunda reconstrução. Dentre as áreas a serem remodeladas nesse processo, como demonstração da força do poder politico, estava o esporte (ocupariam o 3º posto geral na tabua de medalhas nas Olímpiadas de 1952).
Ferrenho defensor do socialismo (Stalinista) e vice-ministro dos esportes da Hungria, o meticuloso Gusztáv Sebes é o escolhido para chefiar o futebol, em 1949. Sucessor das ideias de Hogan e Meisl, o treinador articulava projetos inovadores e essenciais na construção de uma grande equipe. “O futebol é uma questão existencial” afirmava Sebes, induzindo ser fundamental a reunião dos atletas ao máximo de tempo possível para entrosamento. Como a Seleção só se reuniria em períodos intercalados, eles teriam de jogar em um mesmo time. Formam-se as raízes do processo que fará do Honved um dos melhores times da história.
Por imposição do governo, o Kispest AC (mudaria o nome para Honved, ou Defensores da Pátria, em húngaro), passaria a ser controlado pelo exercito. Nas bases da equipe já se encontravam os lendários Puskas e Bozsik, e a partir deles começa a construção do Time de Ouro. Seriam requisitados para o clube, em função do interesse estatal, os melhores jogadores do país - que assim adquiriam patentes militares. Foram os casos de Czibor (vindo do Csepel), do goleiro Grosics, o defensor Lorant e os avançados Budai, Kocsis e Czibor (trazidos do Ferencvaros). Para comandar o Honved, após a morte do antigo treinador (pai de Puskas), o gênio Sebes indica Janos Kalmar (um dos pais do 4-2-4). Teria ainda um outro grupo base reunido no MTK Budapeste, com Hidegkuti, Lantos e Zakarias.
Com esse plano de futebol, passo a passo, Gusztáv Sebes entrosa uma equipe magistral, de incrível demonstração no jogo preciso e de muita mobilidade, na qual todos os jogadores tinham compactação ao defender e atacar, em constante movimentação no campo, com técnica impressionante e um preparo físico notável.
O futebol nunca mais seria o mesmo...
Por volta dos anos 30, sucedendo os mestres da escola de Danúbio e aumentando a altivez inglesa, o genial Hebert Champan percebe que a nova regra de impedimento deixava as defesas ineficazes com apenas dois jogadores, e promoveu uma grande inovação abalando o sistema tático padrão (2-3-5), ao implantar o terceiro zagueiro quando atrasava um médio. Nascia o incrível WM. Por quase duas décadas, essa vanguarda tática passou a ser o maior conceito de organização do jogo, algo inabalável e copiado por quase todos da esfera futebolística. Embora na América do Sul, depois dos uruguaios (da Celeste Olímpica), lá pelos anos 40 passou a existir uma noção de jogo mais técnico, solto de táticas, mas bem organizados como era, por exemplo, a brilhante geração Argentina (com base no River Plate, Lá Máquina).
A competição também reunia outras grandes forças, como o Brasil (de Evaristo de Macedo e Vavá), a Suécia (ultima campeã Olímpica/49, com Rydell e Erik Nilsson) e a Iugoslávia (com Mitić, Ognjanov e Čajkovski). Dia 15 de julho, com 2 a 1 (Czibor e Kocsis) frente a Romênia, os húngaros passaram da fase preliminar. Na sequencia (21/07), pela primeira fase do torneio, os italianos foram presas fáceis: 3 a 0 (com Kocsis deixando o seu) ficou até barato. Na fase final, dia 24/07, disseminando um jogo dominante e envolvente os Magiares arrebataram 7x1 na Turquia (2 gols de Kocsis e 2 de Puskas, além de Lantos e Bozsik também marcando), e no dia seguinte meia dúzia na Suécia com a magia de Puskas, Kocsis (2x) e Hidegkuti. Na decisão enfrentaria a Iugoslávia, que havia passado por URSS, Dinamarca e Alemanha.
Naquele 02 de agosto, quase 60 mil espectadores acompanharam algo épico. Com ações latentes dos jogadores aos espaços do campo, os iugoslavos foram envolvidos numa tática ainda desconhecida. Resistiriam no primeiro tempo com um empate apesar das ameaças húngaras, graças a forte defesa formada por Beara, Stankovic e Crnković. Mas na etapa regulamentar, ficou impossível segurar Puskás (abriu o placar aos 25’). Em outro ataque potente aos 43’, Czibor definiria o triunfo (2x0), resultado até simples dado os constantes ataques húngaros.
A Conquista Olímpica deu reconhecimento e o peso do brilhantismo, que ficaria ainda maior um ano depois, ainda antes da Copa de 54.
O desastre dos ingleses contra os norte-americanos na Copa do Mundo de 1950, no Brasil, foi visto como uma aberração. A pátria-mãe do futebol, invicta em Wembley (não perdia um jogo em casa para uma seleção não-britânica desde 1901) sempre desafiava todas as grandes equipes que surgiam, até então tendo resultados satisfatórios continuava no alto de sua soberba e hierarquia superficial. Mas contra os húngaros tudo mudou...
Apesar do empate inglês pouco tempo depois, logo o controle dos Magiares se faria notável. Puskás era outro cérebro a pensar jogadas, com ele o avanço de Czibor, que devolve a bola no camisa 10, derrubado na área, sobrando a bola para Hidegkuti, limpar o defensor e marcar (2x1).
Ao longo do jogo, conforme recuo de Hidegkuti, os laterais ingleses voltavam para marca-lo, nesse momento ele metia a bola nos espaços vazios, nas costas da imponente defesa inglesa, encontrando os extremos velocistas Budai e Czibor livres nas diagonais, ou Puskás no mano a mano com um único zagueiro. Foi assim, que após trabalho de toques, Czibor apareceu livre na direita, ele passou a Puskas, que dá um corte seco no lendário capitão inglês Billy Wright deixando-lhe no chão, e arremata de perna esquerda assinalando outro golaço (a jogada desse gol seria referida como “o objetivo de arrastar para trás"). Aos 29’, Bozsik cobrou falta, a bola desvia em Puskás e entra (4x1). Mortensen até consegue diminuir aos 38’. Mas em outra falta cobrada por Hidegkuti na cabeça de Kocsis, que manda na trave, no rebote Bozsik assinala outro gol (5x2). A tática só foi perecível devido a incrível técnica daqueles jogadores que faziam algo fora do habitual, provocando dor de cabeça no adversário e espantavam o mundo. A jogada do sexto gol foi magia pura, quando Czibor e Buzánszky trabalham a bola do lado direito deixando os ingleses na roda. A redonda é alçada na área, Budai toca de costas com a cabeça para Kocsis, que de cabeça manda à Puskas, em seu domínio magistral na entrada da área, observa, toca com categoria por cima da defesa inglesa, Hidegkuti é um ponto futuro a penetra pela direita e chutar sem deixar a pelota cair assinalando a arte aos 53’ (6x2). Ali foi o bastante para iniciar os aplausos ingleses, incrédulos mas conscientes de estarem vendo algo revolucionário. Alf Ramsey fez ainda de pênalti (6x3), mas o mito já estava consumado. O meio-campista da Inglaterra, Syd Owen, mais tarde reclamou que "era como jogar pessoas do espaço sideral". Foram quase 40 chutes a gols dos húngaros contra meia dúzia dos ingleses. Um massacre em todos os sentidos!
Muito além do futebol, o “Duelo do Século” também tinha ponto de vista politico, colocando uma espécie de confronto simbólico entre o Oriente Comunista e o Ocidente Capitalista. Para a sociedade, a equipe húngara tornava-se a imagem da rebelião de uma nação oprimida contra superiores implacáveis. Como observaria o escritor, Péter Esterházyque, " para a Hungria Ferenc Puskás e seus companheiros de equipe eram os heróis do conto de fadas, que triunfam onde homens comuns não podem”. Para a Inglaterra, o resultado chocante abriu um novo capítulo no futebol nacional.
“ A Hungria adaptou o WM e redesenhou no WW. Com um dos médios (Zakarias) recuando formava a linha de 4 zagueiros, na frente induziu a pensar que Hiderkuti era um centroavante, na verdade, um meia que fazia flutuação atrás da linha de ataque, assim articulando o 4-2-4 (principalmente ao atacar, conforme a escola húngara de Sebes e Belá Guttmann). Puskas era outro jogador que podia recuar, virando um ponta de lança, nesse momento formando o 4-3-3, principalmente ao defender. De maneira geral quase todos os jogadores tinham variações. Bozsik podia fazer um líbero ou médio central com liberdade de avançar; Zakarias era conforme necessidade um defensor ou um médio central; Lorant era um zagueiro, mas também podia ser líbero de saída pela esquerda ou direita. Na frente Czibor atuava nas duas pontas, Kocsis virava o principal centroavante ao recuo de Hidegkuti ou Puskas. O major galopante era um cérebro a flutuar do meio para o ataque e reger toda a sinfonia. ”.
Pela mão de Gusztáv Sebes, a Hungria mostrava um novo caminho táctico, desmistificando o “WM”. Era o alvorecer do 4-2-4, um estilo sem posições definidas que privilegiava a técnica e a ofensividade, jogadores a movimentar-se constantemente como partículas de elétron em um átomo. Iminente e puro nascer, do que diriam 20 anos depois, ser o nomeado Futebol Total. O mundo até pode atribuir aos holandeses, com seu acervo midiático e televiso maior na época, mas os percursores foram os húngaros com a polivalência dos seus homens, aproveitando também do ensaio da Áustria (Wunderteam) dos anos 30, ou todo o futebol centro europeu desde 1930 a 1956. Embora, certamente, fosse um exagero afirmar que a queda do Império Britânico foi causada pela perda de um jogo de futebol, a multidão silenciosa e sombria de Wembley certamente teve sua visão do mundo abalada. E as coisas ficaram ainda piores alguns meses depois, quando a Hungria derrubou a Inglaterra por 7 a 1 no recém-construído Nepstadion - o Estádio do Povo - em Budapeste, causando a mais pesada derrota na Inglaterra.
Talvez o destino da Copa, porém, tenha sido traçado já na segunda rodada, na sacada de mestre do técnico alemão Sepp Herberger, que entendeu o regulamento e não expos em campo os principais jogadores (alguns como Posibal escalou fora de posição), poupando e visando os jogos que realmente interessavam (contra a Turquia), além de estudar o magistral time da Hungria. Sem importar com uma derrota, Herberger queria os titulares descansados para as decisões. O time húngaro por outro lado mostrou todo seu poderio aplicando 8x3 (Kocsis 4x, Hidegkuti 2x, Puskás e Tóth). Além de servir de conhecimento aos alemães, aos 15’ do 2º tempo, a Hungria perdeu seu maior astro, Ferenk Puskas, após sofrer séria torção no tornozelo devido uma desleal entrada por trás do médio Liebrich. Sem conseguir ao menos caminhar, o craque ficou na beira do gramado, mostrando a perna inchada para os jornalistas. A duvida ficou se ele voltaria a atuar naquele Mundial.
A estratégia dos alemães se mostraria acertada. Nos jogos seguintes a Turquia goleou a Coreia do Sul como esperado, e os alemães demoliram os turcos num 7 a 2.
Nas quartas de final, em jogo que ficou conhecido como A Batalha De Berna, quis o destino colocar o Brasil frente aos Magiares, dia 27 de junho, no estádio Wankdorf, em Berna. Antes da luta começar, enquanto o Brasil fazia nervosa preleção nos vestiários, os húngaros corriam na lateral do campo para aquecer e entrar no gramado como se já estivessem jogando alguns minutos, pegando os brasileiros ainda frios. A bola rola e aos 4’, Hidegkuti tomou a redonda de Pinheiro e chutou forte abrindo a conta. Três minutos depois, Kocsis em uma de suas cabeçadas, ampliou. Sem respiro o placar mostrava 2x0! O Brasil entrou em campo com ataque modificado: Índio e Humberto no lugar de Pinga e Baltazar; além de Maurinho, improvisado na ponta esquerda devido a lesão de Rodriguez. Já a Hungria do técnico Gyula Mandi, com a lesão de Puskás, deslocou Czibor para a meia e pôs Tóth na esquerda. A chuva tinha deixado o gramado em más condições prejudicando a velocidade das equipes. Aos poucos o Brasil até igualou as ações, Djalma Santos (de pênalti) diminuiu ainda na 1] fase. No meio campo os jogadores começam a trocar agressões, longe dos olhos do arbitro. A partida vira uma batalha com o passar do tempo, com carrinhos e jogadas ríspidas. No segundo tempo, de forma polemica, aos 15’, a Hungria assinala o terceiro gol com Lantos (pênalti). Ainda com alguma força o Brasil reage aos 22’, Julinho acerta um arremate de curva (golaço) para recolocar o Brasil no jogo. A confusão retoma, e os craques Nilton Santos e Bozsik são expulsos. Aos 40’, Humberto acerta Lorant e é expulso. A Hungria aproveita a superioridade numérica e decreta com Kocsis o quarto e ultimo gol, 4x2!
Diferente do jogo anterior, nas Semifinais a partida foi de pura arte entre húngaros e uruguaios, no Olympique La Pontaise, em Lausanne (30 de junho). Como habitual a Hungria mostrava ímpeto marcando logo aos 12’ (Czibor, 1x0). Mas longe de existir uma superioridade, ataques lá e cá. Os húngaros com movimentação e toques rápidos, os uruguaios com avanços pelas pontas nos contra-ataques. Ao iniciar a segunda fase, aos 2’, os Magiares ampliaram com Hidegkuti. Os uruguaios, contudo, não ficaram pressionados e através de Hohberg, aos 31 e aos 41, empatam (2x2). Na prorrogação uma das mais belas apresentações já vistas entre duas equipes, melhor para a Hungria, que tinha Kocsis para marcar 2x de cabeça. Ao fim a torcida acenava lenços brancos agradecendo o espetáculo. Na decisão um recontro com a Alemanha, agora titular e com outra postura.
Após aquela Copa do Mundo, nunca mais a Hungria voltaria a formar gerações tão magnificas. Além da aposentadoria de alguns jogadores e desmembramento do Honved (perdendo jogadores pra outros clubes como Real Madrid e Barcelona), a Revolução no país (revolta popular contra os ações impostas pelo governo da República popular da Hungria e pela URSS) ocorrente dois anos depois empenhou na derrocada. Assim, a politica e as armas que geraram aquela Equipe de Ouro, também seria responsável pelo seu fim. Uma pá de cal em possíveis novas grandes gerações a surgirem...
Ficaram, porém, eternizados pela revolução e legado no futebol mundial.
- Campeões Olímpicos de 1952.
- Copa Internacional da Europa Central de 1953.
- 2º lugar na Copa do Mundo de 1954.
OS FEITOS HISTÓRICOS & LEGADO
- Invencibilidade de quatro anos em jogos internacionais (recorde de 32 jogos consecutivos).
- Estabeleceram a maior escala de gols em uma época.
- Sepultaram a soberania Inglesa e o gigante WM.
- Os pioneiros a usarem em harmonia a técnica, a tática e o preparo físico em alta proporção no jogo.
- Revolucionaram o futebol com o WW (4-2-4 ou 4-3-3), intervendo a pirâmide inglesa e estabelecendo matrizes para novos conceitos táticos difundidos e desenvolvidos no futuro (como o Brasil de 1958 e a Holanda de 1974).


