No dia 15 de junho de 1958, a dupla mais espetacular da história do futebol e do Brasil, que disputou 40 jogos com a Amarelinha e nunca foi derrotada, estreou em Copas do Mundo, na vitória por 2 a 0 sobre a União Soviética, na Suécia.
O resultado foi bom para os Ingleses, que somavam 2 pontos em dois jogos e enfrentariam a eliminada Áustria na última rodada. Em um grupo considerado dos mais fortes da primeira fase, o Brasil teria ainda pela frente a científica União Soviética, Campeã Olímpica de 1956, que tinha como destaques o goleiro 'Aranha Negra', Lev Yashin, a máxima referência técnica Igor Netto e o artilheiro Valentin Ivanov. Ambos os selecionados somavam três pontos e caso empatassem e os ingleses vencessem, a classificação seria decidida no saldo de gols.
Ainda com o sentimento neófito, os brasileiros eram pressionados pela ideia de fracassar em decisões, causados pela derrota no Maracanazo de 1950 e a eliminação na Copa de 1954. Semanas antes do jogo contra os soviéticos, Nelson Rodrigues chegou a publicar sua famosa crônica “De Vira Latas a gênios”. O adversário comunista causava temor pelo senso de organização tática, a política daquela união e todo o mistério que lhes rondavam. Era um futebol que trazia a noção de modernidade, jogo físico e de diminuir espaços com ações no campo além do que se conhecia. No dia dos jogos, espalham histórias que os soviéticos faziam quatro horas de ginástica matutina e que o serviço secreto KGB espalhava espiões por todo o mundo para observar tudo que havia de proveito sobre o futebol e as fraquezas dos rivais, filmando as partidas e informando dados precisos. Dizia-se ainda que seus computadores, chamados cérebros eletrônicos, formavam estratégias perfeitas para derrotar qualquer equipe do mundo.
Após vencer por 3 a 0 a Áustria na estreia e empatar no jogo seguinte, a equipe brasileira mostrou instabilidade e ficou em alerta. Por toda a expectativa gerada no confronto com os 'cientistas da bola', seriam necessárias mudanças no Onze do Brasil. A primeira delas foi meio por acaso, quando Dino Sani sentiu a virilha e não estaria 100% para o jogo contra a URSS, ficando decidido que Zito iria substitui-lo. O possível problema virou solução quando deu a consistência que faltava ao meio-campo brasileiro, pois Didi era um meia cerebral, de técnica refinada, mas não muito afeito à marcação. Dino Sani era outro jogador de mais técnica e estava um pouco sobrecarregado nas funções defensivas. Com Zito, o Brasil conseguiria ter o dinamismo necessário entre a defesa e o ataque, a boa saída de bola e sem perder a qualidade técnica.
As mudanças mais impactantes e que marcariam aquele momento pela eternidade, contudo, ocorreram lá no ataque. Não é comprovada a lenda de alguns jogadores (Bellini, Didi e Nilton Santos) terem ido ao técnico Vicente Feola pedir a entrada de Pelé e Garrincha no time. A estreia do garoto Pelé já era certa há dois dias antes do jogo, quando o jovem se recupera de uma lesão sofrida antes do Mundial. Por outro lado, ninguém imaginava a também entrada de Garrincha na equipe, substituindo Joel. O técnico Feola percebeu que, com a entrada de Zito, teria reforçada a marcação da equipe e já tinha um ponta que também fazia trabalho defensivo na esquerda, o predestinado Zagallo. E apesar do ponta-direita Joel vim jogando bem e ser visto como um jogador moderno por ajudar na marcação, Feola decidiu por aumentar a produção ofensiva, reforçando o ataque com um ponta clássico ou autêntico, um tal de Mané. Curiosamente o psicólogo do Brasil, João Carvalhaes, considerava Pelé e Garrincha emocionalmente despreparados (sic). Mas contrario a recomendação, Feola teve o apoio dos jogadores quando decidiu testar os dois juntos na equipe.
A partida contra a temível União Soviética ocorreu dia 15 de junho de 1958, quando contabilizada a maior plateia (51 mil pessoas) daquela Copa, no estádio Nya Ullevi, em Gotemburgo, em um enredo a testemunhar o Brasil dando um verdadeiro baile de bola. A equipe soube conter a incrível preparação física adversária utilizando a troca de passes, os dribles desconcertantes e a qualidade técnica. Nos primeiros momentos do jogo a equipe já mostrava o efeito das trocas. O jornalista Gabriel Hannot, da L’Equipe, descreveu como os maiores três minutos da história do futebol mundial. Se os soviéticos tinham preparo para jogar 180 minutos, a estratégia seria decidir rápido e faze-los cansar mais. Na primeira bola, Didi centrou para Garrincha, que dominou no bico da chuteira, fez o pra lá e pra cá passando como quis por Kuznetzov, que cai sentado, entrou na área e acertou a trave do goleiro Yashin. Continuou Mané a desesperar os russos, fazendo de Kuznetzov uma alma atormendada, nem com a ajuda de Voinov e Krijveski davam jeito naquele homem torto. Garrincha fazia o estádio explodir em risos e aplausos. Passou um minuto, Pelé foi quem chamou a responsabilidade e inicia com Vavá, que devolve a Didi, que passa a Garrincha e este dá outra vez a Pelé, o camisa 10 então arremata e a bola novamente acerta a baliza. Os soviéticos entravam em parafuso, estavam perdidos. Veio o lance seguinte, Didi com passe genial encontrou no meio de dois zagueiros Vavá, o centroavante avança e arremata abrindo a contagem, 1x0! Naquele momento já se via Yashin com a camisa molhada de suor, como se já jogasse há várias horas, mas só haviam passados três minutos.
A segunda etapa mostrou alguns momentos de equilíbrio, o jogo físico chegou a ganhar vez, mas prevaleceu a categoria dos Brasileiros. Ninguém segura Pelé em suas conduções, todos se atormentam com Garrincha e seus dribles. A nova contagem até demorou, mas veio após troca de passes: Pelé toca para Vavá, que devolve a Pelé, que entrega ao centroavante brasileiro em ato de determinação e coragem, esticando a perna entre zagueiros e assinalando mais um gol! Nessa jogada, Vavá ficou com um enorme corte na canela esquerda, resultado da dividida com as travas da chuteira de Kesarev. O 2 a 0 ficou barato, foram cerca de 36 ataques do Brasil, apenas duas defesas solitárias de Gilmar por toda a partida. O fascínio do jogo lúdico derrotava o impacto físico.
No restante do jogo, o Brasil ainda fez um ensaio de habilidades com jogadas de efeito e tabelas, bola de pé em pé, os brasileiros levavam o futebol para outra patamar. No dia seguinte, jornais do mundo todo descreviam a facilidade dos brasileiros em envolver os soviéticos na beleza de suas jogadas.
15/06/1958 - BRASIL 2 x 0 UNIÃO SOVIÉTICA
Gols: Vavá, aos 3' do 1º tempo e aos 34' do 2º tempo.
Local: Estádio Nya Ullevi, em Gotemburgo (Suécia).
Público: 50.928 espectadores.
Ábitro: Maurice Guige (França).
Brasil - Gilmar; De Sordi, Bellini, Orlando e Nilton Santos; Zito e Didi; Garrincha, Pelé, Vavá, e Zagallo. Técnico: Vicente Feola.
URSS - Yashin; Kesarev, Kuznetsov, Voinov e Krizhevski; Tsaryov e Alexandr Ivanov; Valentin Ivanov, Simonyan, Netto, Ilyin. Técnico: Gavril Kachalin.
Conforme se sabe, a Copa decorreu com as grandes apresentações daquele Selecionado maravilhoso, que para muitos foi a melhor seleção de todos os tempos. Afinal só uma equipe reuniu Pelé e Garrincha, além de tantas outras lendas como Didi, um astro fundamental nessa conquista. O Brasil venceria a Irlanda do Norte com o brilho do menino Pelé nas Oitavas. Depois massacrou a toda poderosa França com jogadas de Garrincha e incríveis lances e gols (3) de Pelé nas Semifinais. Na decisão outro espetáculo do futebol arte, agora contra o país sede: 5 a 2 pra cima da Suécia! Pelé fez outros dois gols e desmaia em lágrimas, em cena das mais fantásticas da história, talvez a mais emblemática das Copas! Garrincha ainda tentava entender a grandeza daquilo que teria feito.
Brasil, O País do Futebol !
Não se pode esquecer, porém, que antes dessa epopeia magistral, ocorreu a estreia de Pelé e Garrincha em Copas do Mundo contra a União Soviética, em jogo colocado como o marco inicial para enterrar o complexo vira-lata e decretar o valor do futebol arte da escola brasileira.
“Gostariamos que cada torcedor brasileiro pudesse ter estado ao nosso lado, quando tudo era felicidade com aqueles rapazes de camisa amarela, no centro do campo, a se voltar para os dois principais lances das arquibancadas, repletas saudando o público, aquele mesmo público que tivera ocasião de assistir a uma das grandes partidas de futebol de todos os tempos. E que gritava, de maneira complicada, em sua pronuncia para nós estranha o nome de Brasil! Brasil! Brasil!”. – Reportagem do Jornal O Globo.


