"Um jogador rigorosamente brasileiro, brasileiro da cabeça aos sapatos. Tinha a fantasia, a improvisação, a molecagem, a sensualidade do nosso craque típico" - Nelson Rodrigues, escritor e jornalista
24 de abril de 1932, até onde se tem notícia, em partida do Bonsucesso vencida por 5 a 2, Leônidas pela primeira vez executou a engenhoca jogada conhecida como bicicleta. Artificio que ele tornou famoso ao executa-la durante a Copa do Mundo.
Sempre foi um jogador diferenciado. Mas foi entre 1931 a 32, quando além do scratch carioca foi chamado para a Seleção Brasileira, na Copa Rio Branco, que despertou reconhecimento ao marcar os gols da vitória sobre a Celeste Olímpica (Uruguai) na finalíssima. Atraído pelo Peñarol, não conseguiu obter brilhantismo no Uruguai, apesar dos 11 gols em 16 jogos. Contusões e problemas de adaptação o atrapalharam.
Seria campeão pelo Botafogo em 1935, assinalando mais de 20 gols naquela temporada. Seria no Flamengo que se tornaria ídolo, ajudando o clube a sair de uma fila de 12 anos e o popularizou enormemente – muito da imensa torcida rubro-negra se deve ao Leônidas. Nessa etapa ao qual foi um centroavante mais de área, o Diamante seria artilheiro do estadual já em 1938 (16), protagonista e Campeão em 1939, ainda artilheiro do Torneio Rio-São Paulo em 1940 (13). Ao todo disputou 149 jogos e marcou 153 gols com a camisa Rubro-Negra.
Nesse período, também disputou as Copas do Mundo em 1934 e 1938. Na Itália o Brasil não foi nada bem, mas na única partida de Leônidas ele marcou contra a Espanha. Quatro anos depois, nos gramados franceses a sorte virou, Leônidas viraria uma estrela global, encantando o mundo com suas jogadas plásticas, desenvoltura, dribles e gols fantásticos.
Ao saber que Leônidas não jogaria contra a Itália nas semifinais, o zagueiro italiano Alfredo Foni chegou a afirmar: "Foi como um presente dos céus saber que Leônidas não jogaria. Verdadeiro artista, malabarista da bola, era o jogador que surpreendia a todos”.
Coroado pela imprensa internacional como o principal jogador da Copa do Mundo na França, Leônidas da Silva era dotado de uma genialidade diferenciada. Sua elasticidade e incrível impulsão, jogadas e chutes imprevisíveis, matadas de bolas perfeitas, técnica apurada e velocidade, faziam do Diamante da Bola um jogador magnífico. Era um atleta bem condicionado e forte em uma época de pouca preparação física.
"Esse homem de borracha, na terra ou no ar, possui um dom diabólico de controlar a bola em qualquer lugar, desferindo chutes violentos quando menos se espera. Nessa posição de fera atingida, vi Leônidas executar uma série de tesouras com as pernas, aproveitando um centro e golpeando a bola de costas para o gol. Quando Leônidas faz um gol, passa-se estar sonhando. Esfregam-se os olhos. Leônidas é magia negra." – jornalista francês Raymond Thourmagen, matéria da Paris Match, na Copa de 1938.
Jogador revolucionário, talvez não tenha sido o criador da jogada conhecida como Bicicleta (algo parecido tenha sido feito por Petronilho de Brito antes), mas foi o “Homem de Borracha” o jogador a executar com melhor desenvoltura e perfeccionismo tal inovação, popularizando um dos lances mais geniais do futebol - consta ainda por alguns jornais, que na copa do mundo de 1938 ele também realizou a bicicleta e marcou o gol, para espanto dos torcedores, contudo, anulado pelo juiz que desconhecia a técnica.
"Leônidas não explicava nada. Quando a gente estava arregalando os olhos para ver se via, a mágia já estava feita" - Mário Filho, escritor e jornalista.
Tratando de problema no joelho, que o seguia desde 1933, teve de passar por cirurgia. Conseguiu se desvencilhar do Flamengo, se recuperou em regime militar enquanto estava preso. Anos depois daria a volta por cima.
Quando desembarcou em São Paulo, na estação do Norte (Roosevelt), Bairro do Brás, no final da tarde do dia 10 de abril de 1942, foi recebido por uma multidão – cerca de 10 mil pessoas – que o conduziram nos ombros carregando-lhe até a sede (R. Dom José de Barros, no centro) do seu novo clube: o São Paulo F.C. o contratava por 200 contos de reis, a maior transação do futebol Sul-Americano na época.
Mas nem tudo foi festa, havia um misto de idolatria e desconfiança. Os rivais diziam que o tricolor havia comprado um bonde de 200 conto e houve na imprensa quem o taxasse de velho. Novamente o Diamante Negro teve de passar por cima da desconfiança. Há mais de um ano sem disputar partida oficial, tardaria um pouco a jogar, passando por estafante período de treinamento. Em 24 de maio de 1942, ocorreu a tão esperada estreia, no Pacaembu, em um empate contra o Corinthians (3-3), com recorde de público do estádio até hoje com 70.281 pagantes.
Na terceira partida ele daria sinais a que veio. Contra o Palestra, dia 14/06, Leônidas marcou o gol do São Paulo de maneira espetacular, um gol de bicicleta, que levou o locutor Geraldo José de Almeida à loucura!!!
No clube que não conseguia títulos desde 1931, piadinhas rolavam sobre a capacidade do tricolor e de seu novo astro em 1943. Diziam que para definir o Campeão Paulista bastaria jogar a moeda ao ar. Cara, o campeão seria o Corinthians. Coroa, o Palmeiras. Décio Pacheco Pedroso (presidente são-paulino) recebeu a resposta sobre as chances do seu clube: “para o São Paulo ser campeão só se a moeda cair em pé”.
A superação era a busca de Leônidas e do São Paulo F.C., firmando um casamento perfeito. O tricolor tratou de se reforçar, contratando Zezé Procópio, Noronha, Ruy, Zarzur e Antônio Sastre. Aos poucos a equipe tricolor foi se aprumando, transformando-se em um esquadrão. Foram os “Reis do Futebol paulista” na década de 1940.
Defesa forte e equipe equilibrada. A disposição da melhor linha média do Brasil (Ruy, Bauer e Noronha). Eram subsídios para Leônidas revolucionar em sua movimentação ofensiva. O São Paulo formou um Rolo Compressor, passou por cima dos rivais, e conquistou os Campeonatos Paulistas de 1943, 1945, 1946 (invicto), 1948 e 1949. Além das Taças dos Campeões RJ-SP de 1943, 45, 46 e 48.
Mudando um pouco suas características habituais de artilheiro prolífico, Leônidas passou a ser um jogador mais técnico no São Paulo, uma espécie de camisa 10, cérebro da equipe – principalmente após a saída de Sastre. Ainda assim, em 215 partidas marcou 144 gols (8º maior artilheiro do clube).
Alguns dos jogos que Leônidas marcou gols de Bicicleta no Pacaembu:
14.06.1942. Paulista. Pacaembu. 1x2 Palestra de SP;
24.08.1944. Amistoso. Pacaembu. 3x1 Ypiranga;
11.08.1946. Paulista. Pacaembu. 4x2 Comercial-SP;
13.11.1948. Paulista. Pacaembu. 8x0 Juventus;
03.07.1949. Paulista. Pacaembu. 7x2 Comercial-SP.
Era ainda destemido, apesar da pequena estatura (1,65m), não tinha medo de enfrentar os defensores grandalhões. Não perdia a viagem, entrava firme, disputava qualquer jogada, não tinha bola perdida. Unia técnica e vigor físico como poucos. Para André Ribeiro (jornalista autor de sua biografia), [...] “Leônidas era o Pelé da época. No entanto, foi Pelé numa época em que ainda não existia a grande mídia. Um jogador fora de série”.
Na Seleção Brasileira, ao qual jogou de 1932 e fez sua última partida em 1945-46, apesar dos desentediamentos com Flávio Costa e com a CBD, sua incrível média foi mantida: 19 partidas e 21 gols (1,10). Na decisão da Copa Rocca de 1945, contra a poderosa Argentina de Pedernera, Labruna & cia, pela melhor de três, o Diamante assinalou na goleada de 6 a 2 do Brasil.
"A bola era a lua cheia de graça de Leônidas da Silva"
- Armando Nogueira, escritor e jornalista.
Ainda assim, sem a Copa no currículo e de uma época tão distante, continuou a ser lembrado.
Foi considerado um dos 25 melhores jogadores do século XX por algumas publicações internacionais (IFFHS e Guerin Sportiva) e um dos 100 melhores da história (Word Soccer). Entrou em diversas Seleções Brasileiras de todos os tempos (como a da placar, no final do século passado).
Foi ainda Campeão Brasileiro de Seleções Estaduais em 1931, 1938 e 40 pela seleção carioca e 1942 pela Seleção Paulista. Na seleção brasileira suas conquistas foram a Copa Rio Branco de 1932 e a Copa Rocca de 1945.
Eternizado e cultuado por inúmeras gerações, Leônidas da Silva foi simplesmente um dos melhores centroavantes da história do futebol mundial em todos os tempos.
Você pensava que o "Diamante" fosse joia de mentira para tapear/
Você pensava que o "Caboclinho" fosse negro de senzala para se comprar/Só porque viu que ele tem um pé que deixou o mundo inteiro em revolução/Quando ele bota aquele pé em movimento,chuta tudo para dentro e não tem sopa não."
(Música "Deixa falar", de Nelson Pertesen, interpretada por Carmen Miranda).
FONTES/REFERENCIAS
O negro no futebol brasileiro (Mário Filho) Paris Match;
Corriere della Sera;
FIFA; CONMEBOL; CBD/CBF;
Site oficial do São Paulo F.C.;
Almanaque do SPFC (Raul Snell JR. e José Renato S. Santiago JR.);
Almanaque do Flamengo (Clovis Filho).


