Sebes era desde a infância um apaixonado pelo futebol, assim como muitos jovens de sua geração, o esporte recém chegado no país, ganhava um espaço cativo no coração dos húngaros, que já organizavam seu campeonato desde 1901. Em sua formação o jovem de família simples e de origem judia, se encantou com os ensinamentos do Socialismo, sendo um Marxista declarado, assim como muitos dos judeus, que sofriam grave perseguição em seu país.
Sua carreira como jogador de futebol começaria muito cedo, ainda em seu país, pelo clube do Vasas Budapest, segundo os registros mais citados, em 1920, então com 14 anos.
Sua paixão política na juventude, o levou ao cargo de sindicalista dos trabalhadores das indústrias alimentícias em Budapeste, o que acentuou a sua perseguição, obrigando-o a se refugiar na França, onde também se posicionou politicamente em favor dos trabalhadores. Na França, seu primeiro emprego foi em uma fábrica da Renault, como instalador. Por lá teve uma chance de continuar sua carreira futebolística, como jogador pelo Club Olympique Billancourt, durante uma temporada.
Ao regressar à Hungria em 1925, jogou pelo MTK Hungária FC, 3 onde os seus colegas de equipa incluíam Jenő Kálmár e Pál Titkos, que mais tarde trabalharam como assistentes de Sebes. Durante o seu tempo no MTK, ajudou o clube a vencer a liga húngara três vezes (1929, 1936, 1937) e a Taça da Hungria uma vez (1932). Foram 20 anos como jogador do MTK.
Ao fim da segunda guerra em 1945, a Áustria se retira do reino, que havia se alinhado à Alemanha Nazista durante à guerra. Com a derrota e a ocupação soviética, seria proclamada a República a 1 de fevereiro de 1946. A República Popular seria proclamada a 20 de agosto de 1949.
Gusztáv Sebes vivia uma espécie de lua de mel com a nova ordem nacional, por isso é tão importante falar de sua origem simples e sindicalista. Suas ideias não demoraram a ganhar espaço na Hungria Socialista, o respeito pela sua carreira como jogador e sua habilidade de discurso, como organizador dos sindicatos, na juventude, o destacavam rapidamente. A carreira como um mentor do futebol húngaro veio com prazer e naturalidade.
O futebol, como dissemos no início ser o esporte que encantava os húngaros antes da guerra, agora era algo como uma catarse, lembrando que a Hungria foi um dos países mais devastados pelo nazismo, com consequências que a história reverbera até os dias atuais. Nesse cenário fértil para o desporto, a nova ordem socialista vê nessa paixão nacional uma nova oportunidade, panfletária! O futebol era usado como um instrumento de propaganda do novo regime, e Gustav Sebes, era um de seus principais elementos.
Muitos foram os caminhos que levaram Sebes ao posto de treinador da seleção húngara no ano de 1949, entre as inúmeras consequências da nova orientação política no país, tornou-se uma consoante repetitiva, a ordem de enaltecer o governo nacional, qualquer partida contra um país não comunista era vista como um embate entre os regimes, como a história nos mostrou em vários outros esportes ao longo do tempo, não foi nada diferente na Hungria e com o futebol.
Por meados do fim dos anos 40, um modesto time de bairro, que apenas havia conquistado a liga húngara uma vez, em 1926 o Kispest AC, passa a ser controlado pelo exército, mudando o seu nome para Honved, isto é, Defensores da Pátria, em húngaro. Quando escolheu o modesto Kispest para incorporar o espírito futebolístico húngaro, Sebes teve a sorte de encontrar já nesse pequeno clube do lado sul de Budapeste, os grandes jogadores Puskas e Bozsik, amigos de infância que não tinham conhecido outra equipa na vida. Partindo deles, começou a construir a grande equipa, requisitando para o clube, em nome do Estado, os melhores jogadores do país, que assim adquiriam patentes militares, visto que o Honved era a equipa do exército húngaro, como foram os casos de Czibor, vindo do Csepel, e do guarda redes Grocis, o defesa Lorant e os avançados Budai, Kocsis e Czibor, vindos do Ferencvaros, praticamente desmantelado. Essa foi a base do time magiar. Lembrando que o Honved havia sido treinados nos anos de 57 e 58 pelo também genial Béla Guttmann.
Período de Ouro da Seleção Húngara
Inspirado por nomes como Hugo Meisl, treinador do "Wunderteam", equipe austríaca que contou com a estrela Matthias Sindelar como jogador e Vittorio Pozzo, então bicampeão mundial como treinador da Itália (1934 e 1938), Sebes começou a estudar o futebol com muito afinco, buscando um estilo de jogo que fosse não apenas revolucionário, mas vencedor e traduzisse as aspirações socialistas de sua pátria. O foco era dar um novo significado ao WM de Hebert Chapman. A dita pirâmide. No auge de seus experimentos, adaptando as filosofias de vários outros esportes, ouvindo os ensinamentos de Márton Bukovi, treinador húngaro também célebre por suas experimentações, veio o sistema WW, que era a base do time formado pelos craques húngaros, que detém o recorde de 32 partidas internacionais invictas, entre os anos de 1950 e 1954, conquistando nesse tempo uma medalha olímpica (1952) e um vice campeonato mundial.
A batalha de Wembley
Dita como um dos jogos mais emblemáticos do período, em 20 de novembro de 1953, a seleção da Hungria derrotou a seleção Inglesa por 6 x 3, num evento chamado pela mídia internacional de Jogo do Século!
Apesar de amistosa a partida era tensa, a seleção inglesa não perdia em casa para um selecionado não britânico desde 1901. Sebes havia estudado os pormenores da equipe inglesa, estava treinando há três semanas coisas como o uso de uma bola mais pesada, como era comum no campeonato inglês na época e treinar com o campo molhado e encharcado, foram adotadas.
O resultado foi impressionante, um nó tático, Sebes havia reproduzido em um campo simples na Hungria todas as condições que poderiam ser encontradas em Wembley, a exibição foi emblemática!
Auge e declínio dos magiares
Curiosamente, o auge da seleção húngara representa também o início de seu declínio. A Hungira chegou brilhantemente a final da copa de 1954 e foi derrotada pela seleção alemã, claro, em outro momento que havia muito mais do que futebol em campo, porém, essa final em específico é tema para outro capítulo, vale apenas dizer aqui, que essa derrota feriu o orgulho de Sebes, sendo sua primeira derrota em quatro anos, desde então, com o agravamento da crise política na Hungria, já não demonstravam a superioridade de antes, seu sistema havia sido polinizado pelo mundo, inclusive no Brasil, onde Béla Guttmann trouxe muitas inovações estratégicas no ano de 1957, fomentando o 4-2-4 que seria usado pela seleção em 1958, quando o Brasil foi finalmente a primeira equipe a vencer uma copa sem usar o tradicional esquema do 3-2-5, o dito WM.
Reverberação no futebol moderno
O time da Hungria de Sebes, ficou conhecido pela polivalência de seus integrantes, muitos dos jogadores eram capazes de cobrir as funções de ataque e defesa, algo até então não experimentado no futebol. Os frutos dessa inovação podem ser notados em muitos momentos, talvez o primeira deles, seja observado na seleção de 1958 do Brasil, onde Zagallo, fazia o papel de ir e voltar cobrindo os avanços de Garrincha e demais jogadores de vocação ofensiva, mas sem deixar de ser parte fundamental na participação dos gols.
Outra invenção comumente associada à Sebes é a criação do Camisa 10, na função de meia armador, que assegura a sustentação ao ataque, isso foi adotado recuando o homem central que antes permanecia junto aos atacantes, e tirando assim o futebol um pouco mais das pontas dando flexibilidade às opções de ataque.
Uma inovação pouco comentada foi a desmistificação dos números nas camisas, que antes demarcavam posições fixas, dando assim ao time adversário uma leitura da equipe, Sebes foi um dos primeiros homens à se valer do estrategema de inverter esses números para confundir os adversários e fazer do seu esquema ainda mais imprevísivel.
Se o moderno jogo do Barcelona, é uma herança da Holanda de 74, podemos dizer que Sebes é seu avô, ao impor um time que primava pela posse de bola e tinha em todos os setores opções de ataque e defesa. Denotando ainda um futebol que era pensado também pelos jogadores sem a bola, nas suas transições e combinações de passes.
Sebes faleceu aos 80 anos em 1986, na cidade de origem.
*o objetivo desse texto é apresentar o indivíduo Sebes, a Hungria de 54 e o 4-2-4 serão abordados em seus pormenores nos próximos textos.
EXTRA REGISTRO EM VÍDEO DO JOGO DO SÉCULO:


