Quem conhece superficialmente a trajetória do maior arqueiro italiano da história não imagina dois fatos sobre ele: que não tinha grande obsessão em ser futebolista e era um tanto baixo para poder ter uma oportunidade mais séria na posição onde se destacava nas brincadeiras pelo pastos verdejantes do nordeste italiano: o gol. Chegou a viajar para os grandes centros do futebol no país para realizar testes nos clubes de ponta, mas a baixa estatura impedia que fosse levado a sério.
Filho de camponeses, o jovem Dino não se abateu com a rejeição, uma vez que também gostava muito de estudar e de ajudar o pai com os afazeres no campo, se destacando em reparos de ordem mecânica, algo que considerava para o futuro. Sua avó, no entanto, acreditava muito no potencial de Dino, submetendo-o a uma dieta especial à base de ovos para que pudesse atingir um tamanho mais robusto. Algo que, por hora, não deu muito certo, mas que pode ter surtido efeito anos depois, uma vez que Zoff teve crescimento em uma idade onde muitos não conseguem variar mais de 2 ou 3 centímetros: ele conseguiu 15! Mas a idade já considerável não o animou muito com a possibilidade em conseguir atuar profissionalmente. Para a alegria de sua nonna, ele estava equivocado.
O adolescente quase-adulto, agora de boa estatura, estava apenas brincando nos velhos campos com os amigos de sempre, fazendo pontes e se atirando nos pés dos dianteiros sem receio. Ali foi observado por um olheiro da Udinese, um dos mais antigos clubes italianos e principal de sua região, que o levou a fazer testes no clube, onde obteve êxito e foi logo integrado ao time principal. Lá ficou duas temporadas, das mais terríveis do clube em toda sua história, tendo a cruel missão de evitar goleadas que, quando não fazia, o mundo lhe caía sobre a cabeça.
Vendo que ali não conseguiria grandes feitos, Dino aceita se transferir para o Mantova que, em oposição ao Udinese, vivia um dos seus momentos mais felizes, com nosso herói podendo se mostrar mais aos holofotes do calcio. Apesar de não ter conquistar títulos em nenhuma das quatro temporadas, Zoff obteve grande destaque, se transferindo para o Napoli, jovem clube que vinha de campanhas relevantes na Série A. Ao manter o nível de atuações, consegue a primeira oportunidade na seleção italiana, onde pôde finalmente ser campeão como titular. Claro, graças a um verdadeiro alinhamento dos astros, coisa rara para nós mortais, mas que inundam a trajetória dos supercraques da bola.
O grande Albertosi é substituído por Lido Vieri, guarda-redes do Torino, durante o combate contra a Bulgária em Sofia, válido pelas qualificatórias para a Eurocopa de 1968. Resultado: derrota italiana e questionamento a Vieri – ainda que um tanto injusto. Com Albertosi fora de combate, o papel de assumir o gol no desafio da volta cabe a Zoff, que fecha o gol e classifica a Itália, vencedora por 2 tentos a 0 e classificada para enfrentar a poderosa União Soviética. Jogando em casa, Zoff fecha o gol novamente. 0 a 0 e desempate no cara ou coroa (!). Sorte maior italiana e caminho aberto à final, contra a Iugoslávia. O craque Džajić abre o placar para o adversário, mas Domenghini empata a 10 minutos do fim e força o jogo desempate dois dias depois, onde Zoff (adivinhem?) fecha o gol e garante a primeira conquista continental para a Squadra Azzurra, vencendo por 2 a 0. Zoff é eleito o goleiro do torneio, praticamente selando sua convocação à Copa do Mundo de 1970, a ser realizada no México. Com o título europeu, a Itália vai como uma das favoritas e chega à final, após embate épico contra os alemães ocidentais na semifinal, mas não resistem ao talento dos brasileiros e ficam com o vice. Durante o torneio Zoff foi reserva de Albertosi, já recuperado.
Após revezar com o arqueiro do Milan na titularidade da seleção, Zoff vê o caminho livre com a aposentadoria de Albertosi da mesma, após não-qualificação para a Eurocopa em 1972. Curiosamente, um ano muito feliz para Zoff também por outro motivo: a transferência para a Juventus, o que significava mais chances de disputar títulos, o que se concretizou efetivamente logo ao final da temporada, não só com o título da Série A, mas com direito a recorde (àquela época) de um goleiro na Série A, ficando 903 minutos sem tomar gol. Um recorde até hoje é o de jogos consecutivos: 332, sendo dois destes feitos no Napoli, compreendendo seu auge. Feito que se repetia ainda com mais relevância na Seleção, onde ficou 1.143 minutos sem tomar gol, outro recorde absoluto até hoje. Zoff foi vazado apenas contra Emmanuel Sanon, do azarão Haiti, na estreia da Copa do Mundo de 1974. Apesar da vitória, a Itália não foi bem no mundial, caindo na primeira fase da competição. Pela Juventus, segue conquistando títulos e mais títulos, com destaque agora para o primeiro continental oficial da equipe, a Copa da UEFA. A Taça dos Campeões quase veio alguns anos antes, mas pararam no esquadrão histórico do Ajax na primeira temporada de Zoff. Realizado a nível de clubes, outro mundial estava por vir.
A Itália voltaria a fazer uma boa campanha em mundiais, ficando com o 4º lugar na Copa do Mundo de 1978, disputada na Argentina, perdendo novamente para o Brasil na decisão do terceiro posto, agora de virada e por 2 a 1.O gol de empate – pintura de Nelinho – foi considerado defensável pela imprensa esportiva do país e a titularidade de Zoff começava a ser contestada, somando a suposta falha, a idade já avançada de 36 anos, quatro a mais que Albertosi tinha quando se retirou da seleção. A resposta Dino foi sendo dada em campo, com títulos e mais títulos pela Juventus. A chance de se redimir da desconfiança geral veio com a Eurocopa de 1980, disputada novamente na Itália. Acusado de minar as novas gerações de goleiros que surgiam no país, Bearzot, técnico da seleção, tinha em Zoff seu homem de confiança. Apesar de só sofrer um gol na competição, não defendeu nenhum dos 9 pênaltis batidos pela Tchecoslováquia na disputa pelo terceiro posto, ficando novamente com o 4º lugar e engrossando o coro dos críticos pela sua aposentadoria. Firme em sua posição de que ainda tinha lenha a queimar pelos Azzurri, Zoff não entrega a camisa e Bearzot, confiante no talento do goleiro, o mantém para a disputa da Copa do Mundo de 1982, realizada na Espanha. Para a sorte dos italianos (e azar nosso) desta vez não houve equívoco.
Mesmo sem vencer na primeira fase, classificando para a segunda graças a três empates, uma mudança de paradigma tático fez os italianos irem fortes para a etapa seguinte, um triangular complicado contra uma seleção brasileira mais forte ainda que a do ano anterior e os atuais campeões argentinos. Com Gentile anulando Maradona, os italianos venceram a Argentina por 2 a 1, mas como estes perderam para o Brasil por dois gols de diferença no jogo seguinte, a Itália precisaria vencer os favoritos brasileiros para avançar. Graças a uma atuação de gala com hat-trick de Paolo Rossi – que não havia feito nenhum gol até aquele momento – e uma defesa fenomenal de Zoff ante cabeçada certeira de Oscar, que valeria a classificação canarinho. Valeria. A Tragédia do Sarriá também foi uma tragédia para os críticos de Zoff e Bearzot, que agora torciam para que estivessem ainda mais equivocados.
Com ânimo renovado do grupo e especialmente de Rossi, venceram a Polônia sem sustos na semifinal e pegariam a Alemanha Ocidental na final, desgastada de um embate de mais de 120 minutos contra os franceses. Era hora de sair da fila! Depois de um primeiro tempo difícil, mas já de domínio Azzurri com direito a pênalti desperdiçado por Cabrini, a Itália se impôs, vencendo por 3 a 1 e fazendo ele, Zoff, levantar o tricampeonato mundial na flor dos seus 40 anos de idade, sendo o segundo goleiro a erguer uma taça de Copa pelo país, igualando o feito de Gianpiero Combi 48 anos depois. Mais um recorde com ares de inquebrável para a carreira, que após tal acontecimento ainda teve mais uma temporada, com mais um título de Copa da Itália pela Juve. Título que marca a aposentadoria dos gramados, aos 41 anos. Os críticos de antes são os que agora choram de saudade, já se preocupando com a reposição. Não à toa, uma vez que foram 112 jogos de Dino pela Itália. Mas não eram só os ex-críticos que lhe rendiam homenagens: o personagem Benji Price, da série japonesa Super Campeões (sucesso por aqui nos anos 1990), é uma clara referência ao então ex-goleiro italiano. Benji se apresentava como “o melhor goleiro do mundo”.
Tentou emplacar uma carreira de treinador, iniciando na seleção olímpica do seu país em 1986 visando os Jogos de 1988 em Seul. Apesar do 4º lugar no torneio, a equipe levou muitos gols – algo que fere o orgulho Azzurri –, incluindo goleadas para a rival Alemanha Ocidental e para a inexpressiva seleção de Zâmbia. Assim, partiu para assumir a Juventus, onde conquistou mais duas Copas que já havia conquistado como jogador: a da Itália e a da UEFA. Todavia, as conquistas pararam por aí. Até assumiu a Squadra Azzurra em 1998, após a saída de Cesare Maldini. Chegou à final da Eurocopa em 2000 e prestes a faturar seu bi na competição, sofre o empate nos acréscimos da final e a virada na prorrogação, perdendo o título para os franceses e o cargo, não tendo feito grandes trabalhos após isso, se aposentando definitivamente do futebol ao sair da Fiorentina em 2005.
Um ano antes, é agraciado com o Jubileu da UEFA, sendo considerado o maior jogador da história de seu país nos anos posteriores à fundação da entidade, superando nomes como Gianni Rivera, Giacinto Facchetti, Franco Baresi e Roberto Baggio. Recentemente, se colocou abaixo do atual goleiro da Itália, Gianluigi Buffon, em pergunta lhe direcionada por conta das diversas comparações feitas pelos fãs do futebol da atualidade, diante do inegável talento, longevidade e conquistas de Buffon. Toda comparação da bola é bem-vinda, uma vez que proporcionam debates e enriquecem o conhecimento de todos os envolvidos. Pela primeira frase do presente texto, nossa posição (cabe destacar que majoritária e não homogênea) sobre a questão é bastante clara. Entendemos que o agora Vovô Zoff seja um senhor muito gentil – algo notável por outras declarações e circunstâncias famosas. Caso realmente represente sua opinião, estaria Dino novamente equivocado? Talvez alguns ovos a mais no desjejum de Gianluigi pudessem resolver o dilema...
FICHA COMPLETA
Nome: Dino Zoff
Local de Nascimento: Mariano del Friuli, Itália, em 28 de fevereiro de
1942
Posição: Goleiro
Clubes: Udinese-ITA (1961-1963), Mantova-ITA (1963-1967), Napoli-ITA (1967-1972) e Juventus-ITA (1972-1983)
Principal clube: Juventus (479 partidas e nenhum gol marcado)
Seleção: 112 partidas e nenhum gol marcado
Títulos: Campeonato Italiano (1972-1973, 1974-1975, 1976-1977, 1977-1978, 1980-1981, 1981-1982), Copa da Itália (1978-1979, 1982-1983) e Copa da UEFA (1976-1977), pela Juventus; Eurocopa (1968) e Copa do Mundo (1982), pela Seleção Italiana.
Prêmios individuais: Seleção da Eurocopa (1968, 1980) e Seleção da Copa do Mundo (1982), pela Seleção Italiana; Jubileu de Ouro da UEFA, 41º Melhor Jogador do Século XX pela Revista Placar (1999), 3º Melhor Goleiro do Século XX pela IFFHS, 2º Melhor Goleiro Europeu do Século XX pela IFFHS, Melhor Goleiro Italiano do Século XX pela IFFHS, FIFA 100 (2004), 40º Maior Craque das Copas do Mundo pela Revista Placar (2006), um dos 1000 Maiores Esportistas do Século XX pelo jornal The Sunday Times, incluído no Hall da Fama do Futebol Italiano (2012), Golden Player pela FIGC (2004), presente na Leggende del Calcio da Golden Foot (2004) e inserido na Calçada da Fama do Esporte Italiano (2015), pelo conjunto da obra.


