PRIMÓRDIOS - FUNDAMENTOS DO FUTEBOL NO PAÍS (JSL)
Em 1921 foi fundada a Associação de Futebol do Japão, que até hoje é a entidade máxima do esporte. Também em 1921, a Copa do Imperador foi fundada, sendo o mais antigo torneio doméstico japonês ainda em atividade. O primeiro time de futebol a surgir foi o Tōkyō Shūkyū Dan (東京蹴球団, Clube de Futebol de Tóquio), em 1917. O ano também marca, segundo a FIFA, a primeira partida oficial da seleção japonesa, contra a filipina, jogo em que o time nipônico perdeu de 15-2 na capital Tóquio. Assim como na grande maioria dos países, a gênese do futebol japonês também se deu entre a classe operária, mas com particularidades, uma liga unificada demoraria ainda muitos anos para ser criada. As gigantes fábricas do país, cada uma delas chefiada por um clã familiar, formalizaram o primeiro modelo de campeonato apenas em 1965, a Japan Soccer League. ou JSL.
O torneio não era vinculado às normas da FIFA, sendo portanto amador. Todos os times levavam o nome das fábricas que representavam. Originalmente, a JSL consistia em apenas uma divisão, mas em 1972 uma Segunda Divisão foi adicionada. Os clubes poderiam participar ganhando a All Japan Senior Football Championship, em seguida, vencendo uma série de promoção / rebaixamento contra as equipes de pior classificação na JSL. De 1973 a 1980, tanto os campeões quanto os segundos classificados da Segunda Divisão tiveram que jogar a série de promoção / rebaixamento contra os clubes da Primeira Divisão; depois e até 1984, apenas os vice-campeões tiveram que jogar a série.
As principais equipes da JSL incluíam Hitachi Ltd., Furukawa Electric, Mitsubishi Heavy Industries, Nissan Motors, Toyo Industries (Mazda) e Yomiuri Shimbun, que agora são, respectivamente, Kashiwa Reysol, JEF United Chiba, Urawa Red Diamonds, Yokohama F. Marinos e Sanfrecce. Hiroshima e Tóquio Verdy. Furukawa / JEF United foi o único a nunca ser rebaixado para a Segunda Divisão e manteve essa distinção até 2009. O Yomiuri SC (Tokyo Verdy) e o Mazda SC (Sanfrecce Hiroshima) foram os maiores campeões do antigo formato com 5 títulos cada.
Entre 1970 e 1984, todas as tentativas da seleção de entrar na Copa do Mundo ou na Copa da Ásia falharam ou não ocorreram por desistência. Em 1988, entrou na Copa da Ásia pela primeira vez, perdendo logo na fase de grupos. Na edição seguinte, contudo, sediou o evento e fez uma campanha bem sucedida, conquistando o campeonato pela primeira vez.
INÍCIO DA CULTURA DO FUTEBOL NO JAPÃO E PRIMEIROS EXPOENTES
Como dissemos logo no início do texto, o mundial de clubes trouxe um novo fôlego para o futebol, onde sempre foi tratado com perspectiva de produto desde seu início. A primeira grande influência do futebol na cultura japonesa é bem curiosa, e como vamos ver, envolve o Brasil. Um dos fenômenos de mídia entre os jovens japoneses eram suas revistas em quadrinhos, que incentivaram os famosos desenhos animados japoneses. Mas não pense nesses periódicos, como os nossos gibis de Maurício de Souza ou nas obras de Monteiro Lobato. Os mangás (nome dos gibis populares no Japão) e os animes (séries de desenho animado) eram consumidas por lá tal como as nossas novelas por aqui. Então no ano de 1981, surge uma iniciativa de promover o futebol entre os jovens, ainda na carona do mundial, que acabou se tornando um produto de grande sucesso também na América Latina, o mangá Capitain Tsubasa.
O tema central de Captain Tsubasa é o futebol. A produção da série foi patrocinada pela Associação Japonesa de Futebol. Foi um sucesso instantâneo e ajudou a melhorar a imagem da Seleção Japonesa.
O foco da história está nas aventuras do jovem Oliver Tsubasa que sonhava em ser jogador profissional e campeão do mundo com a seleção. A série é caracterizada por movimentos de futebol dinâmicos contidos em ações fantasiosas. Também trata do relacionamento de Tsubasa com seus amigos e oponentes, além de sua rotina como jogador. Incentivava também símbolos da educação japonesa que eram apreciados nos esportes, como a hierarquia e o respeito aos mais velhos. Oliver teve um grande astro brasileiro (fictício) como mentor, chamado Roberto Maravilha, que lhe inspirou o amor pela cultura do futebol brasileiro. Um dos pontos altos da série era a transferência do jovem para o time do São Paulo, se você já é um admirador do futebol japonês, já pode ter notado uma similaridade com a vida real, certo? Mas pode ter pensado errado!
Durante esse re-aquecimento do futebol no país, vários jovens foram enviados ao Brasil para se aperfeiçoarem. Porém, antes do mais famoso deles, um nome faz o link entre o personagem principal dos quadrinhos com a realidade de forma mais efetiva: Musashi Mizushima. Em novembro de 1974, Pelé, tricampeão mundial com a Seleção Brasileira, foi à Shizuoka, no Japão, lançar uma escolinha de futebol. Um dos garotos ali, do Shimizu FC, lhe chamou a atenção. Assim, aconselhou os pais do menino, a tentarem a sorte no Brasil. A família investiu pesado nesse sonho e o jovem desembarcou, na cidade de Santos, em abril de 1975.
O Santos, porém, não possuía categoria de base para jogadores daquela idade (Musashi nascera em 10 de setembro de 1964, tinha 11 anos). Zoca, irmão de Pelé, recomendou aos japoneses que inscrevessem o pequeno nas linhas do São Paulo, serra acima. O jovem jogador foi tema até de uma propaganda no Japão, ligando ainda mais os dois países. lembrando que a cidade de São Paulo é a maior colônia de japoneses fora do Japão em todo o mundo!
O jovem Musashi, nem mesmo chegou a disputar jogos oficiais no Brasil, diferente do caso mais famoso dos japoneses enviados ao nosso país, Kazuyoshi Miura (clique para acessar nossa matéria sobre Kazu). Filho de um milionário empresário japônes, Kazu veio também muito jovem ao país, mas teve boa passagem em nosso futebol, sendo o primeiro japoês a marcar um gol em jogos oficiais no Brasil. Quando fez o gol, jogava pelo XV de Jaú, o fato foi noticiado efusivamente em todo o Japão. Onde inclusive o time universitário do Shizuoka Gakuen, homenageia o fato, usando as cores do XV de Jaú no uniforme até os dias atuais. O mítico gol de Kazu foi marcado em 19 de março de 1988, quando balançou a rede em uma partida contra o Corinthians pelo Campeonato Paulista. Posteriormente Kazu se tornaria um grande ídolo pela seleção japonesa, chegando a jogar a Copa do Mundo de 1998, e passando inclusive pelo clube italiano do Genoa, onde foi o primeiro japonês a jogar na Itália. Uma última curiosidade envolvendo Kazu é sua longevidade, pois o atacante mesmo como reserva, ainda atua, pelo time do Yokohama FC. Sendo inclusive o jogador mais velho a marcar um gol em partidas oficiais e o mais velho a ser escalado, recorde que ele mesmo bate a cada vez que entra em campo. Estando a caminho de bater o recorde também de carreira mais longeva do futebol, assim que oficializar a sua aposentadoria.
NASCIMENTO DA J LEAGUE
Com todas as premissas anteriormente citadas, era até curioso pensar que o Japão ainda não possuía uma liga oficial. Um plano ousado então começou a ser arquitetado. É possível ver em vários momentos, que o bloco de empresários que pensou a J League, se inspirou muito na extinta NASL (Liga Norte Americana) que nos anos 70 levou Pelé, Cruyff e Eusébio, entre muitos outros nomes, para promover o futebol em seu país. As similaridades não param nos grandes craques, as duas ligas se preocuparam em promover o futebol como um espetáculo, que ia muito além dos jogos, desde a produção de incontáveis gadgets (produtos industriais de menor necessidade básica, como broches e bonés) até uma característica ainda presente nos dias atuais, verdadeiros shows de música, luzes e tecnologia, antes das partidas.
A J League segui o modelo da extinta NASL contratando grandes ícones
A J League foi formulada em 1992, os patrocinadores foram abolidos do nome das equipes. As regras da FIFA foram adotadas. E algo interessante há de ser observado, no início dos anos 90, o mercado de transferências do futebol mundial, se encontrava um pouco estagnado. Com exceção da liga italiana, os campeonatos europeus não eram milionários. Ainda existiam limites rígidos para as contratações de jogadores estrangeiros, mesmo dentro do continente europeu, e a balança econômica deixava o Japão em uma situação muito favorável. Esses fatores, mais o bom planejamento dos empresários criadores da Liga, a transformaram em um novo rumo para grandes jogadores.
Zico que já jogava no Kashima desde 1991, portanto ainda na JSL, era considerado o grande garoto propaganda. Mas não era o único grande jogador a participar do projeto inicial da J League. Gary Lineker, Ramon Díaz e Michael Rummenigge (irmão de Karl-Heinz Rummenigge) e também o já famoso no Brasil Kazu, estavam entre os jogadores da primeira edição. Um que também merece destaque é Ruy Ramos, um brasileiro naturalizado japonês, que já era ídolo tanto em seu time, o recém nomeado Tokyo Verdy, quanto na seleção de seu país. Isso além de uma série de jogadores menos influentes, mas que certamente teriam mercado na Europa.
Wenger treinando o Nagoya Grampus Eight
A primeira partida oficial da J League ocorreu em 15 de maio de 1993, Verdy Kawasaki e Yokohama Marinos. A liga começou com dez times, mas devido ao seu sucesso, deu origem a uma rápida expansão, com praticamente dois novos times se juntando a cada nova temporada até a disputa de 1996. Em cada uma das duas temporadas seguintes, um novo time se juntou à liga.
Kazu foi eleito o primeiro jogador do ano da J League em 1993, seu clube, o Tokyo Verdy venceu as duas primeiras edições.
Os anos seguintes apontariam muita prosperidade para o campeonato japonês, onde podemos contar alguns fatos interessantes, o jogador Leonardo, se transferiu para o Kashima Antlers em 1994, onde jogou por dois anos, antes de ir para o Paris Saint German, invertendo a lógica tradicional do mercado. O grande treinador Arsène Wenger, teve uma curta passagem pela liga em 95, dirigindo o Nagoya Grampus Eight, antes de ir treinar o Arsenal. César Sampaio, jogador titular da seleção em 1998, atuava pelo Yokohama Flügels, durante sua convocação, assim como o capitão Dunga, que jogava pelo Júbilo Iwata. Mas a lista de personagens importantes do futebol que migraram ao Japão é bem vasta, incluindo Edmundo, Alcindo Sartori, Patrick Mboma, Pita, Jorginho, Littbarski. Apenas para falar de alguns.
O Japão finalmente se classificou para a Copa do Mundo em 1998, e desde então nunca mais ficou de fora de uma edição até o momento.
DIAS ATUAIS
Em 1997, com o estouro da crise dos Tigres Asiáticos, começaram a haver grandes cortes nas contratações, e também na estrutura e nos planos dos clubes, mas isso não impediu a liga de continuar crescendo.
Em 1999, foi criada a J2 League, no qual e uma espécie de Série B do Campeonato Japonês, embora na época de amador, já existia a segundona japonesa, que era com o nome de Japan Soccer League Division 2. Desde 2005, a J. League segue o modelo europeu, de pontos corridos. porém pra aumentar o nível de competitividade fez com que a partir de 2015, fosse adotado um modelo semelhante ao início da liga, com dois turnos e playoffs. A partir de 2014 iniciou o J3 League, a terceira divisão do campeonato.
Alguns clubes nunca mais foram os mesmos após perderem os patrocinadores masters, em virtude da crise, o maior exemplo é exatamente o Tokyo Verdy, que atualmente é um clube que disputa a J League 2, e não passou mais a ser um frequentador da divisão principal. Outro fenômeno, é que o Japão passou a ter sucesso em criar seus craques em casa, jogadores japoneses começaram a ter mais chances de se desenvolver no país e se destacaram internacionalmente. Exemplos são Shinji Kagawa, que joga pelo Borussia Dortmund e já passou pelo Manchester United ; e Keisuke Honda, que jogou pelo Milan.
Nas últimas temporadas a J League voltou a reviver seus tempos de grandes nomes, quando recentemente trouxe o veterano Iniesta, para o Vissel Kobe, e o tabém espanhol Fernando Torres, para o Sagan Tosu, mas nomes interessantes, como o brasileiro Jô, ainda atuam no país, que é um bom mercado para jogadores em fim de carreira ou em promoção para ir a Europa, no caso dos asiáticos.
Atualmente jogando pelo Vissel Kobe, Iniesta segue a tradição de grandes nomes atuando pela J League
| Equipe | Títulos | Anos |
|---|---|---|
| Kashima Antlers | 8 | 1996, 1998, 2000, 2001, 2007, 2008, 2009, 2016 |
| Júbilo Iwata | 3 | 1997, 1999, 2002 |
| Yokohama F. Marinos | 3 | 1995, 2003, 2004 |
| Sanfrecce Hiroshima | 3 | 2012, 2013, 2015 |
| Tokyo Verdy | 2 | 1993, 1994 |
| Gamba Osaka | 2 | 2005, 2014 |
| Kawasaki Frontale | 2 | 2017, 2018 |
| Urawa Red Diamonds | 1 | 2006 |
| Nagoya Grampus | 1 | 2010 |
| Kashiwa Reysol | 1 | 2011 |
| Ano |
Jogador |
Gols | Clube |
|---|---|---|---|
| 1993 | Ramón Díaz | 28 | Yokohama Marinos |
| 1994 | Frank Ordenewitz | 30 | JEF United Ichihara |
| 1995 | Masahiro Fukuda | 32 | Urawa Reds |
| 1996 | Kazuyoshi Miura | 23 | Verdy Kawasaki |
| 1997 | Patrick Mboma | 25 | Gamba Osaka |
| 1998 | Masashi Nakayama | 36 | Jubilo Iwata |
| 1999 | Hwang Sun-Hong | 24 | Cerezo Osaka |
| 2000 | Masashi Nakayama | 20 | Jubilo Iwata |
| 2001 | Will | 24 | Consadole Sapporo |
| 2002 | Naohiro Takahara | 26 | Jubilo Iwata |
| 2003 | Ueslei | 22 | Nagoya Grampus |
| 2004 | Emerson Sheik | 27 | Urawa Reds |
| 2005 | Araújo | 33 | Gamba Osaka |
| 2006 | Washington | 26 | Urawa Reds |
| Magno Alves | Gamba Osaka | ||
| 2007 | Juninho | 22 | Kawasaki Frontale |
| 2008 | Marquinhos | 21 | Kashima Antlers |
| 2009 | Maeda | 20 | Jubilo Iwata |
| 2010 | Joshua Kennedy | 17 | Nagoya Grampus |
| Ryoichi Maeda | Júbilo Iwata | ||
| 2011 | Joshua Kennedy | 19 | Nagoya Grampus |
| 2012 | Hisato Satō | 21 | Sanfrecce Hiroshima |
| 2013 | Yoshito Okubo | 22 | Kawasaki Frontale |
| 2014 | Yoshito Okubo | 18 | Kawasaki Frontale |
| 2015 | Yoshito Okubo | 23 | Kawasaki Frontale |
| 2016 | Leandro | 19 | Vissel Kobe |
| Peter Utaka | Sanfrecce Hiroshima | ||
| 2017 | Yu Kobayashi | 23 | Kawasaki Frontale |
| 2018 | Jô | 24 | Nagoya Grampus |


